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domingo, 10 de novembro de 2019

Resenha: O Homem-Morcego & Eu




Eu, sob a Sombra do Quiróptero 

 por Alexandre César



 A vida entre os quadrinhos, cinema, tv e a realidade

#Batman80Anos

 


Em seus primórdios, antes de estrear o seriado de 1966, 
a Rede Globo chegou a passar o cine-seriado de 1943...

 
As minhas memórias afetivas em relação ao Batman, remontam à época em que estreou na Rede Globo de Televisão o icônico seriado sessentista Batman, estrelado por Adam West e Burt Ward. Antes da estreia eu vi, no mesmo dia e na Rede Globo, o seriado das matinês de cinema de 1943, The Batman (com 15 episódios de 30 minutos cada, em preto e branco) da Columbia Pictures, com direção de Lambert Hilyer (A Filha de Drácula, de 1936) e tendo Lewis Wilson como Batman/Bruce Wayne, Douglas Croft como Robin/Dick Grayson, Alfred sendo interpretado por Willian Austin e a presença do grande vilão nipônico Dr. Daka, interpretado por J.Carrol Naish (que não era japonês). O vilão adorava criar crocodilos, alimentando-os com frangos, e algum ocasional desafeto. Batman e Robin tinham a grande missão de deter o Dr. Daka e desviar a carga de rádio que ele mantinha sobre Gotham City para robotizar as pessoas, escravizando-as. Shirley Patterson fazia Linda Page, assistente do Dr. Borden na Fundação da Cidade de Gotham e paixão de Bruce Wayne.

Fosse nas telas ou nos quadrinhos, a geleria de vilões do 
morcegão não tinha rival (com excessão da do Homem-Aranha)...


Mas, voltando ao seriado televisivo da dupla dinâmica, eu lembro o quanto me marcou ainda menino, quando morava no subúrbio de Barros Filho, na cidade do Rio de Janeiro, junto com vários da minha geração. Vivíamos a Era de Ouro da aventura & ficção na TV quando, além do 

“Cruzado Embuçado”, tínhamos a Jornada nas Estrelas original, Além da Imaginação, Quinta Dimensão, os seriados de Irwin Allen (Perdidos no Espaço, Viagem ao Fundo do Mar, Túnel do Tempo, Terra de Gigantes), Bonanza, Os Invasores, Daniel Boone, as séries do gênero Supermarionation de Gerry Anderson (Supercarro, Fireball - XL5, Thunderbirds, Stingray, Capitão Escarlate, Joe 90), os desenhosdesanimadosda Marvel, entre tantas outras. Mas o Morcegão tinha um apelo ao qual nenhum garoto, tivesse ele oito ou oitenta anos, podia resistir, tornando-se uma febre mundial. Lembro que eu, sempre que era levado ao barbeiro, pedia que me cortassem o cabelo num  “penteado igual ao do Batman (seja lá o que fosse isso...). 



A "bat-corda" e os convidados famosos, eram
 uma das marcas registradas do seriado...

Na época a transmissão ainda era em preto e branco, mas as aventuras (contraditoriamente diurnas) do paladino de Gothan City exalavam cores vivas mesmo na reprodução em tons de cinza das telinhas. Era algo à frente de seu tempo, transpirando, em meio ao seu apelo escapista e estilizado permeado por um humor “ingênuo”, uma inteligência e sátira social que somente muitos anos depois eu entenderia. Exatamente por isso nunca deixaria de amá-la. E ainda tinha aquela versão do batmóvel, que viria a se tornar o carro mais famoso do mundo.

Isto sim era um CARRO...


Aqueles eram os Anos de Chumbo, quando o Brasil vivia a Redentora”, o golpe de 1964. Quando os militares - aliados ao empresariado, aos setores conservadores da sociedade e até a CIA - mergulharam o país no estado de exceção sob o pretexto de salvá-lo do comunismo que ameaçava a democracia... Familiar, não? E eu, ainda criança, ouvia os adultos falando que “havia um perigo no ar”, que “se os subversivos viessem, iriam nos fazer prisioneiros, nos obrigar a alimentá-los e obedecer às suas ordens”


Uma realidade preto e branco fazia fundo aos 
coloridos episódios do herói...

Lembro que uma vez cheguei a imaginar a minha casa tomada por um bando de soldados mal-encarados (que curiosamente não eram barbudos...), sentados na sala, comendo uma comida que a minha mãe havia sido obrigada a fazer para eles e - afronta maior - estavam vendo a nossa TV e torcendo para que, daquela vez, o Batman não escapasse da armadilha. Que o Coringa ou o Pinguim ou qualquer dos malfeitores de Gotham havia armado uma armadilha para liquidar a ele e ao Robin!!! Torcer para que o Batman morresse!?! O Batman!?! “COMUNISTAS MALDITOS!!! QUE MORRAM TODOS!!!”, pensava eu na minha inocência impúbere... 





Para muitos, o "SOC!", "PAFF!", "KAPOW!" "SPLATT!
 foi real e nada divertido...



Fui crescendo e descobri os quadrinhos do Batman (desenhados por Dick Sprang e George Klein, entre outros artistas da Era de Ouro dos quadrinhos) publicados pela editora EBAL. As revistas eram impressas em preto e branco e eu adorava pintar com lápis de cor, até acertando às vezes no equilíbrio cromático (às vezes como disse...). 




Opps!!! Capuz rosa!?!


E assim, gradativamente, fui tomando conhecimento da conceito raiz do Batman e o quanto a versão televisiva era uma entre as várias interpretações que o personagem permitia. Sempre surpreendendo pelas diferentes abordagens dos seriados, filmes, animações... e nos quadrinhos, que era onde tudo começou. Fui entendendo que épocas diferentes, mídias diferentes, trazem interpretações diferentes de uma mesma ideia. Fosse como fosse, os anos passaram, o mundo mudou, eu mudei... e mudou o Batman, embora continuasse a ser o mesmo, pois, somente abraçando a mudança conseguimos continuar a ser nós mesmos.


Mulher-Gato (Julie Newmar): A perdição de toda uma geração de garotos e adolescentes...

Abracei os quadrinhos - além do cinema, TV, animação, arte e literatura no geral -, mas sempre reservei um canto para aquele morcego de Gotham dos anos 60 e o seu batmóvel. Tive como fetiche a Mulher-Gato (e a Jeannie é um Gênio) e curti de montão as piadas que faziam acerca da comentada relação dele com o menino-prodígio. Ri muito com a imortal criação de Jô Soares, o Capitão Gay, quadro que ele atuava com o humorista Eliezer Motta no programa global Viva o Gordo, brincando com o conceito do super-herói em geral e com a chamada Dupla Dinâmica em particular. Era a dupla Capitão Gay (Soares) e o seu parceiro Carlos Sueli (Motta), cujas identidades secretas eram respectivamente “o Comendador Gouveia” e o seu fiel secretário Leopoldo. Parodiaram inclusive a clássica sequência da subida no prédio com a “bat-corda”, tão comum no seriado sessentista.


Na terceira temporada surgiu a Batgirl (Yvonne Craig) 
para atrair as meninas, e os adultos babões...

Paralelo a isso, fiz a faculdade, conheci os mestres Neal Adams, Ernie Chua, Marshall Rogers, Frank Miller, entre outros, que moldaram o Paladino Noturno dos quadrinhos com várias tintas, num crescendo que, ao atingir um patamar de massa crítica, lançaram novamente o personagem ao topo da Cultura Pop. 



Carlos Suely (Eliezer Motta) e Capitão Gay (Jô Soares) 
a icônica dupla humorística que fêz muito sucesso
 no programa "Viva o Gordo"...

Nos traços limpos e dinâmicos de Marshall Rogers 
o herói brilhou no final dos anos 1970

Foi quando vieram os filmes, de Tim Burton, de resultados e qualidades variáveis, tirando, para a maior parte do público, o personagem do ostracismo, apostando numa estética dark/expressionista, e que fizeram de Michael Keaton (escolha improvável, mas acertada) um astro. Esta fase culmina com o filme de Joel Schumacher, que carnavalizou a franquia com suas luzes de neon e apostaram em Val Kilmer e em George Clooney para o papel do Homem-Morcego, mas, seu tom exagerado perdeu o equilíbrio, levando o personagem a um hiato de oito anos nos cinemas. 


Michael Keaton no filme de 1989, cuja escolha
  para o papel dividiu os fãs, mas o tempo 
provou ter sido acertada.


Keaton e Michelle Pfeifer em "Batman - O Retorno" (1992)
 onde Tim Burton investiu mais nas tintas, num filme mais autoral.
Paralelamente aos filmes de Burton, fomos contemplados com a presença marcante do personagem no campo da animação por Batman Animated Series, Liga da Justiça, Liga da Justiça Sem Limites e Batman do Futuro. Também tivemos jogos para Super Nintendo e posteriormente Playstation 1 (embora pessoalmente, eu nunca tenha sido ligado em games).


Em "Batman Begins" (2005) Christopher Nolan e Christian Bale
 criaram uma encarnação hiper-realista do herói, marcando 
época e tornando-se referencial.


Com isso, a década de 1990 foi quando o o Batman deixou definitivamente de ser um personagem das HQs para se tornar a figura mais icônica e reconhecível da Cultura Pop. Tudo fruto de um exército de talentosos colaboradores, muitos dos quais sem os devidos créditos, como Bill Finger, ao qual Bob Kane (que, por muito tempo, foi considerado o único criador do herói) deve muitíssimo do sucesso do personagem. Mas isso é o outro lado da moeda da indústria do entretenimento corporativo, onde muitas vezes a materialização do sonho implica na destruição da ilusão e no gerenciamento do pesadelo. 



Algumas das muitas interpretações do personagem nas 
inúmeras animações de que participou...



Vieram depois os filmes de Christopher Nolan, investindo mais no realismo e crítica sócio-política e consagrando o Psicopata Americano Christian Bale como o mais realista Cavaleiro das Trevas. Depois veio a visão de Zack Snyder, com Ben Affleck como um Batman obsessivo e de saco cheio de combater o crime e não ver uma mudança significativa do quadro social. Uma visão que acabou dividindo opiniões. Mas, como sempre, o nosso querido Morcego se viu desafiado a cativar uma nova geração, reinventando-se, ou a retornar a um nicho restrito de admiradores. E como sempre, ele venceu!



Em "Batman X Superman: A Origem da Justiça" (2015) de
 Zack Snyder, foi a vez de Ben Affleck criar uma nova 
versão do campeão de Gothan, mais obsessivo
 e melancólico, calcado em Frank Miller...


 Batman é ao mesmo tempo a materialização da obsessão e da Síndrome do Sobrevivente, bem como a materialização do desejo de vingança mesclado com aspirações de buscar justiça com as próprias mãos regadas a altas doses de fetichismo, contrabalançado com um rígido código de ética. É a busca do bem maior tribal travestido de vigilantismo criminoso. Mas também é uma alegoria do poder, da superação individual face às adversidades da vida quando enfrentamos nossos medos e os fazemos trabalharem ao nosso favor, transformando o medo e a raiva no fogo e no martelo que forjam o aço da perseverança e da disciplina, que tornam meninos assustados em vencedores destemidos. 


Qual fã, seja de qualquer sexo, idade ou nicho social não quis ter 
pelo menos um boneco, dentre as milhares de 
versões disponíveis no mercado???
  
Mais do que um psicopata rico que sai a noite vestido de morcego para sublimar um desejo de vingança por uma perda que nunca será saciada, Batman representa a força da superação, coisa que percebemos na comparação com a sua contraparte solar: O Superman.



Passados mais de 30 anos, "O Cavaleiro das Trevas" 
de Frank Miller ainda permanece como um dos 
pilares conceituais do personagem.


As grandes histórias do Superman são histórias de dilema moral, pois o grande poder do Homem de Aço é a sua capacidade de distinguir o bem do mal. Já as grandes histórias do Batman são histórias de superação, quando, atingindo os seus limites através do seu preparo diligente, ele consegue galgar um novo patamar, mostrando que, ao contrário do que se pensa, o aço não é mais forte do que a carne que o maneja... Coisa que talvez nem os seus criadores tenham intuído conscientemente 


"-Amanhã será um outro bat-dia, e se der sol, 
pode dar praia, e... surf!!!"

sábado, 9 de novembro de 2019

Crítica - Filmes: Doutor Sono




Retorno a Overlook

 

por Alexandre César


Mike Flanagam media Stanley Kubrick e Stephen King



A recriação de cenas -chaves são uma mostra da competência
 das equipes de fotografia, direção de arte e edição.

 Em 1977 Stephen King publicou O Iluminado, uma das obras definitivas do terror, um clássico sobre o declínio de uma família em meio à acontecimentos sobrenaturais, gerando um dos maiores casos de desentendimento entre autores quando Stanley Kubrick adaptou a obra para as telas em 1980, com uma abordagem mais pé no chão, e aliviando nos elementos surreais do livro.

Ewan McGregor retorna aos problemas de "Transpoting"...

O fato é que o livro fala sobre o terror, e o filme sobre a loucura, vindo daí a discussão que o tempo tornou apenas uma trívia, uma vez que o público em geral entendeu que ambas as obras eram visões diferentes de uma mesma ideia.

Andi "Cascavel" (Emily Alyn Lynd) a iluminada 
que entra para o grupo do mal...
 King, que publicamente repudiou o filme, optou por fazer sua própria adaptação (em forma de minissérie por Mick Garris) e escreveu em 2013, Doutor Sono, retomando este universo ficcional, mostrando um Danny Torrance já adulto lidando com os seus fantasmas decorrentes dos eventos sinistros ocorridos no Hotel Overlook, fugindo (e posteriormente aprendendo a fazer uso) do seu dom.


Danny Torrance (Ewan McGregor) após anos de
 luta se vê as voltas com o mal de novo...

Na vibe atual em que as obras de King superaram o inferno astral de péssimas adaptações (vide o bom resultado de It - A Coisa) era inevitável que o livro fosse adaptado, sendo o desafio conciliar ambas as versões num resultado híbrido, mudando final do livro para encaixar elementos que o filme de Kubrick preservou...

A jovem Abra Stone (Dakota Hickman) entra no radar do mal, 
ameaçando a todos entre eles, seu pai (Zackary Momoh)...

Dirigido, roteirizado e editado por Mike Flanagan (Jogo Perigoso, O Sono da Morte, A Maldição da Residência Hill), baseado no livro de King, Doutor Sono (2019) é a resposta a essas indagações, sendo um terror sólido, criativo visualmente mas que ao final perde parte de sua força ao final por tentar conciliar descompasso entre Kubrick e King.


Rose, a "Cartola" (Rebecca Ferguson) se alimenta da 
energia vital dos Iluminados, aspirando-os literalmente...


Danny Torrance (Roger Dale Floyd substituindo Danny Lloyd) durante uma boa parte de sua vida após os eventos sinistros no hotel amaldiçoado aprendeu a ocultar o seu don graças a ajuda do espírito de Dick Halloran (Carl Lumbly de Homens de Honra, As Aventuras de Buckaroo Banzai substituindo Scatman Crothers) e seguindo a vida com sua mãe Wendy (Alex Essoe, substituindo Shelley Duvall) embora sempre guardando o trauma da lembrança de Jack (Henry Thomas de E.T., Lendas da Paixão
 substituindo Jack Nicholson) e o seu mergulho na loucura.

Rose, a "Cartola" alicia Andi "Cascavel" para a sua "família" 
para fazer uso dos seus poderes de aliciamento...

Anos depois, já adulto, Danny Torrance (Ewan McGregor de Transpotting e da trilogia Prequel Star Wars equilibrando força e vulnerabilidade) após fugir entorpecendo o seu dom com álcool, drogas e sexo casual vai para uma cidade do interior (do Maine, afinal é uma obra de King...) recomeçar a vida e graças ao gente-boa Billy Freeman (Cliff Curtis de Fear The Walking Dead e Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw) vai para o Alcoólicos Anônimos, se reconciliando com a sua figura paterna,ao se ver tendo problemas similares com a bebida e, graças ao Dr. John (Bruce Greenwood de 13 Dias que Abalaram o Mundo, Star Trek) consegue um emprego como enfermeiro numa clínica, ajudando com o seu dom aos doentes terminais a fazer a passagem para o outro plano, daí vindo o apelido de Doutor Sono.

Danny agora se estabilizou, com um emprego
 e amigos, vivendo pacatamente...

Paralelo a isso somos apresentados a jovem Abra Stone (Dakota Hickman) que vai revelando ter um dom similar ao de Danny, mas em intensidade maior, deixando os seus pais David (Zackary Momoh) e Lucy Stone (Jocelin Donahue) desconcertados a cada mostra de suas habilidades. Aos poucos ela vai expandindo as suas habilidades, até ser capaz de fazer contato com Danny anos depois, sendo este o ponto em que a história abre mão da claustrofobia, fazendo uma viagem por cidades do interior americano (marca de King) mostrando que não apenas Danny ou Abra, mas o mundo é iluminado, sendo o dom que ele acreditava ser restrito apenas a ele, existir em outras pessoas, em graus e diferentes intensidades; da mesma forma, assim como ele é um dos mocinhos, e inclusive quer distância de tais poderes, e diferente do seu caso em que só teve desgraça com o seu dom, existem aqueles que usam dessa força de formas distintas em suas vidas, sem sofrerem diretamente com isso...

Festa estranha com gente esquisita: O Clã do "Verdadeiro Nó",
 cujos detaques vão a para "Papai Corvo" (Zach McClaron)
 apoiando o gigante "Vovô Flick" (Carel Struycken) e
 a ninfeta Andi "Cascavel". O resto é só figuração...

Mas aí,para termos uma história de terror, precisamos de um Mal, e aí conhecemos Rose, a Cartola (Rebecca Ferguson de Missão:Impossível - Efeito Fallout, O Rei do Show,) líder do clã do Verdadeiro Nó, cuja principal característica é a sensualidade e intimidação mística, sendo ela a antagonista perfeita: cruel, sedutora e estranhamente relacionável, graças à motivação de luta pela sua sobrevivência dela e de seu bando, pois eles se alimentam do vapor, o sopro vital, a Força, ou o que você batizar o dom da Iluminação. Seu grupo, de visual meio hippie, bem definidos pelos figurinos de Terry Anderson (Eli, Covil de Ladrões) de características nômades, incluem entre seus membros, a maioria não definidos, o exótico Vovô Flick (Carel Struycken de A Família Addams, Twin Peaks, MIB: Homens de Preto ) e o seu braço direito Papai Corvo (Zahn McClaron de Westworld, A Rainha do Sul, Fargo) que em um momento chave a ajuda a aliciar a bonitinha mais ordinária ninfeta Andi Cascavel (Emily Alyn Lind de Réplicas: De - Volta à Vida, Revenge) que usa o seu dom para atrair homens na internet para encontros, e após adormecê-los e roubá-los com o seu poder marca seus rostos com uma faca, como uma mordida de cobra (provavelmente no livro a personagem deve ter sido vítima de abuso...). A cena em que ela é transformada num membro do clã, algo não humano, é similar a muitas cenas de vampirismo energético e espiritual...


O vapor pode ser aspirado ou injetado para transformar
 um humano em algo não-humano...


Anos depois, Danny Torrance está estabilizado e Abra Stone (Kyliegh Curran) é uma pré-adolescente que começa a tomar comando de seu próprio dom e o utiliza para manter contato com outros iluminados, mantendo uma sutil conexão entre si, sendo o catalisador do encontro desses núcleos narrativos a morte de Bradley Trevor (Jacob Tremblay de O Predador, O Extraordinário), outro Iluminado, que acaba ecoando nas vidas tanto de Danny quanto de Abra, revelando a existência deles para a família de Rose (que não deixa de ter um “quê” de “Família Mason”), que tal qual tubarões farejam o sangue de uma presa mais substancial...

Dick Halloran (Carl Lumbly) é o espírito guia de 
Danny, que o aconselha nos momentos difíceis...

Assim, após investir mais de metade de suas 2h 30 min. de projeção na formação desse universo, mostrando com profundidade cada um desses três elementos antes de colocá-los em rota de colisão, o filme vai acelerando de forma sutil seu ritmo, num clima de crescente tensão e uma atmosfera perturbadora, sendo esta a maior herança da obra de Kubrick, presente também na estrutura de enquadramento de certas cenas,mas atendendo às necessidades narrativas.

Rose capta Abra em seu "radar" e, com sua "família"
 vai atrás de uma presa mais substancial...

No quarto final, acontece a grande junção das narrativas, conectando os dois filmes (ao contrário do que ocorre no livro O Iluminado, Dick Hallorann, o chef de cozinha que ajuda Danny, está morto, ao passo que o hotel amaldiçoado continua de pé) e aqui tal qual um fanservice muitíssimo bem feito, vão se somando as referências, quando a música de The Newton Brothers (Extinção, A Maldição da Residência Hill) refazendo o inquietante score original de O Iluminado de Wendy Carlos e Rachel Elkind, e a fotografia de Michael Fimognari (Para Todos os Garotos, Antes que Eu Vá) vai emulando bem o trabalho de fotografia de John Alcott em algumas cenas reproduzindo quadro a quadro trechos daquele longa de forma funcional, não apenas em nome da nostalgia, estando de parabéns o desenho de produção de Maher Ahmad (Caça aos Gangsters, Zumbilândia) e Patricio M. Farrell (Gotti: O Chefe da Máfia, Ouija: Origem do Mal) bem como a direção de arte de Rich Bearden (Stranger Things, Covil de Ladrões), Austin Gorg (La La Land: Cantando Estações, Ela) Justin O´Neal Miller (O Primeiro Homem, Homem-Formiga) na recriação dos espaços do amaldiçoado Hotel Overlook, refazendo momentos, personagens e situações-chave mas, caindo aqui no velho problema de derrapar no convencional final de  “Vamos-levar-o-vilão-a-uma-armadilha-que-ele-não-esperava” o que alguns dizem ser a  “maldição das histórias de King”  coisa mais comum às versões cinematográficas do que às histórias escritas propriamente ditas.

A certa altura fica claro que não haverá trégua
 entre as duas forças femininas...

Ao final, em que pesem os prós e contras temos um bom filme que vale a pena o ingresso,destacando o bom trabalho do elenco, com Ewan McGregor forte como Danny, destacando a jovem Kyliegh Curran que empresta uma confiança quase prepotente a Abra, contrastando com a relutância de Danny, sendo capaz de numa cena em que os dois trocam de corpo, emular o olhar e o tipo de interpretação de McGregor convincentemente.

No climax, Danny e Abra atraem Rose para combater em
 terreno minado: O Hotel Overlook, que aqui, ainda está de pé...

No hotel, personagens e situações familiares retornam...

Mas quem rouba a cena mesmo é Rebecca Ferguson como Rose, a Cartola, realizando verdadeiros duelos interpretativos com Curran, como quando a antagonista invade os sonhos de Abra - sem saber que caiu em uma armadilha da garota, enfrentando-se em um ambiente que representa a mente humana como uma biblioteca, com ambas brigando pelo conhecimento da outra, numa ótima mescla de efeitos visuais, edição, e direção de arte. Fica a dica para a Marvel, agora que conseguiram de volta os direitos do X-Men, é bom olhar para a ruiva, que daria uma ótima versão adulta de Jean Grey / Fênix...

Abra: Duelo no labirinto...




Rose e Abra se digladiam em trechos icônicos do Hotel...
Ao final se Doutor Sono não é 100% pelo menos não nos fará dormir ou parar de prestar atenção ao que se vê em cena, visto que Mike Flanagam provou ser capaz de conciliar duas narrativas de forma a dar um produto atraente no seu todo, ainda que não perfeito.

A recriação de certos momentos deixa evidente o 
"fanservice", mas nada que prejudique a narrativa...
 

"- Eu estou te veennndoo!!!"