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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Crítica - Filmes: Midway: Batalha em Alto-Mar




Os dois lados da moeda

 

por Alexandre César 


Roland Emmerich faz seu melhor filme 

 


Charlton Heston e Henry Fonda entre vários outros no filme de 1976...

 

Em 1970 a 20th Century Fox lançou a superprodução Tora! Tora! Tora! mostrando o ataque japonês à base naval de Pearl Harbor de forma realista e humana ao não estereotipar os japoneses como orientais cruéis e sinistros, típicos dos seriados da matinês de cinema dos anos 30-40 muito disso vindo do fato do filme ter sido dirigido por três diretores: O americano Richard Fleischer (20.000 Léguas Submarinas) que fêz as cenas do elenco americano, e Kinji Fukasaku (A Batalha Real) e Toshio Masuda (Uchû senkan Yamato) que fizeram as cenas do elenco japonês. 


Prólogo: O ataque à Pearl Harbor é mostrado no início de
 forma mais sucinta e eficaz do que o filme inteiro de Michael Bay...


Confesso que quando vi o filme pela primeira vez, não era difícil torcer pela turma do sol nascente, uma vez que a retratação daquele grupo de aviadores e marinheiros que se irmanavam com um espírito quase juvenil naquele objetivo comum de vencer o inimigo,com quem demonstravam uma atitude até respeitosa contrastando com a atitude severa e circunspecta de seus comandantes que sabiam estar diante de um desafio monstruoso, gerava mais simpatia do que ver do outro lado, os ianques naquela tranquilidade de se sentirem senhores de tudo.


Morte anunciada: Edwin Lawton (Patrick Wilson) havia 
previsto a possibilidade do ataque, mas seus superiores
 não lhe deram ouvidos...



Bem mais tarde Michael Bay, com seu estilo “todo próprio” em Pearl Harbor (2001) reduziu o conflito a um grandioso pano de fundo da disputa de dois rapazes pelo coração de uma garota, superficializando os fatos históricos em função de um ritmo narrativo de videogame à lá Star Wars.



Pearl Harbor pegou a frota americana com "as calças na mão".
 Se os porta-aviões estivessem lá na ocasião, a guerra
 no Pacífico teria sido vencida ali...


Agora, Roland Emmerich (Independence Day, a versão de Godzilla de 1998, 2012) vem com um filme de guerra que mescla a fórmula narrativa do primeiro e ilustra de forma sucinta e eficaz os elementos principais do segundo, apenas para ilustrar o contexto de sua última obra, um evento crucial na guerra do pacífico, entre tantos outros.


O bombardeio de Tóquio por Jimmy Doolittle (Aaron Eckhart)
 também é mostrado, e melhor do que no filme de Michael Bay...




Midway - Batalha em Alto Mar (2019) se revela, não o melhor filme de guerra, mas com certeza o melhor filme de Roland Emmerich, que aqui equilibra bem a narrativa e a direção de atores num bom espetáculo de ritmo ágil e que dá um bom espaço para os dois lados mostrarem as suas motivações, embora como todo filme hollywoodiano, ele não teria sido feito se os americanos não tivessem ganhado a batalha.

O uso do CGI é apurado, equilibrando o realismo e 
a boa visualização dos elementos da imagem...



O conflito já havia rendido um documentário de John Ford (A Batalha de Midway de 1942), que estava na ocasião na base e filmou cenas do ataque japonês (coisa que o filme mostra de forma genial) que foi narrado por Henry Fonda, que estrelou junto com Charlton Heston a superprodução Midway (1976) de Jack Smight, filme morno que tinha em seu elenco, Glenn Ford, Robert Mitchum, Toshiro Mifune, James Coburn, Robert Wagner, Edward Albert entre outros, apostando no sistema Sensurround, que na época a Universal usava como chamariz para atrair o público, com uma suposta imersão do espectador, mas que aqui, pela péssima qualidade de audio de nossas salas, virava apenas uma barulheira que não permitia definir os sons do que se passava na tela.

O Almirante Chester W. Nimitz (Wood Harrelson): Boa atuação
 no tipo de papel que não costumamos associar ao ator...

As semelhanças com "Star Wars" não é casual já que 
George Lucas se baseou em filmagens de combates 
aeronavais como guia para as suas batalhas espaciais...


O filme em seus minutos iniciais mostra na embaixada americana em Tóquio, um breve diálogo de despedida entre o adido militar Edwin Lawton (Patrick Wilson de Watchmen, Invocação do Mal e Aquaman) e o Almirante Isoroku Yamamoto (Etsushi Toyokawa) deixando claro as razões que colocaram os dois países em guerra entre si, para logo depois de maneira rápida, dramática e resumida mostrar o ataque da Marinha Imperial Japonesa à Pearl Harbor (coisa que poderia ter sido evitada se os superiores de Lawton lhe tivessem dado ouvidos....). 

Tensão: Almirante Tamon Yamaguchi (Tadanobu Asano)
 e o viver sobre o fio da navalha...
Mais adiante mostra a resposta americana do bombardeio à Tóquio comandada por Jimmy Doolittle (Aaron Eckhart de Batman: O Cavaleiro das Trevas) que liderou um esquadrão de bombardeiros do exército americano que decolou do porta aviões Enterprise tendo apenas as bombas e o combustível suficiente para bombardear a capital japonesa e voar até acabar o combustível, quando os tripulantes saltaram de para-quedas sobre a China ocupada. Emmerich consegue de forma eficiente no bojo de seu filme contar o essencial da história do filme de Bay, e de forma melhor, mostrando que um bom roteiro acima de tudo conta uma história ou mais de uma!

Por uma questão de narrativa visual, os navios aparecem
 mais próximos uns dos outros para ficar mais ilustrativo
 do que seria uma batalha...

Aviadores: James Murray (Keean Johnson) e o seu 
superior Dick Best (Ed Skrein)...


Outros personagens de destaque são, do lado dos combatentes, o talentoso mas marrento piloto Dick Best (Ed Skrein de Malévola: Dona do Mal), que tem uma certa birra com o tenente Wade McClusky (Luke Evans) líder de esquadrão, que mais adiante lhe ensina sobre as responsabilidades de ter que levar pilotos e tentar trazer o máximo deles de volta numa missão (e ter de viver com o fato de que nem todos voltarão...) além de Clarence Dickinson (Luke Kleintank de O Homem do Castelo Alto), Bruno Gaido (Nick Jonas), Eugene Lindsey (Darren Criss) e James Murray (Keean Johnson), e do lado do oficiais temos o lendário Almirante Chester W. Nimitz (Wood Harrelson super contido num papel inesperado), o Alm. William “Bull” Halsey (Dennis Quaid) que contra a sua vontade é mandado para o hospital durante os preparativos (ele pensava estar com urticária, mas na verdade estava com herpes) e para mostrar o lado das famílias dos indivíduos envolvidos no conflito temos Ann Best (Mandy Moore) a esposa de Dick e Dagne Layton (Rachel Perrell Fosket) a esposa de Edwin e Marie Pearce (Sarah Halford) a viúva de Roy, um amigo dos Best morto em Pearl Harbor, embora elas tenham pouco tempo em cena para não desacelerar a narrativa.

Um momento genial (e real) é que durante a operação, o 
lendário John Ford, estava rodando um documentário na 
ilha, e registrou o ataque (e ganhou um Oscar)...

O Alm. William "Bull" Halsey (Dennis Quaid) foi afastado
 durante os preparativos por questões de saúde...

Ainda que de forma econômica, o roteiro de Wes Tooke (Colony, Jean-Claude Van Johnson) mostra do lado japonês a tensão constante a que Yamamoto estava submetido, por estar sempre batendo de frente com o Primeiro-Ministro, o General Tojo (Hiromoto Ida) do Exército Imperial, além de suas discordâncias na marinha com o Almirante Nagumo (Jun Kunimura) cuja inflexibilidade impedia seus oficiais de ajudarem-no melhor na batalha. 


Dick & Ann Best (Mandy Moore): Amor nos tempos
 de tiro, porrada e bomba...

É particularmente muito boa a cena que mostra o afundamento do porta-avões Hiryū, quando o Almirante Tamon Yamaguchi (Tadanobu Asano) assume a responsabilidade pela derrota (e por isso afundará com o navio) e exorta os seus oficiais a continuarem defendendo o Japão apesar disso, levando os marujos e jovens oficiais às lágrimas. mas em contraste, o filme também mostra o outro lado da moeda na forma como o Exercito Imperial massacrou os chineses durante a sua ocupação, ou na cena em que um piloto americano capturado pela Marinha Imperial é lançado ao mar amarrado com uma âncora.



Comparando com o filme de 1976, vemos a vantagem 
do uso do CGI para recriar os modelos dos aviões e navios
 envolvidos, coisa que antes dependia do material
 de arquivo disponível...

O pota-aviões Enterprise: Uma perfeita reconstituição de
 como era o navio, e não uma filmagem feita anos depois,
 com as alterações recebeu ao longo do tempo...



A produção é impecável, destacando-se a fotografia de , o desenho de produção de Kirk M. Petruccelli (Tempestade: Planeta em Fúria) e a direção de arte de Page Buckner (Django Livre), Carolyne de Bellefeuille (Pays) e Isabelle Guay (O Regresso) que recriam os espaços funcionais das bases, bares e dos navios de guerra com seus dormitórios, hospitais galpões, escritórios e salas de instrução e estratégia, em contraste com os ambientes residenciais de suas casas, onde tentam viver, nas poucas horas de que dispoem para o convívio familiar, coisa que o figurino de Mario Davignon (A Chegada) reflete bem nas fardas de uso cotidiano, que tanto as de oficiais quanto as de subalternos, têm sutilmente um aspecto gasto e amarrotado, em contraste com os uniformes de gala, usados nos bailes da USO*, onde a música de Harald Kloser (2012) e Thomas Wanker (O Ataque) resgata em breves momentos o glamour lírico das canções românticas do período.

Almirantes Yamamoto e Tamon Yamaguchi 
(Tadanobu Asano): As pressões do comando...

Nas cenas de ataque vemos o quanto se gastava
 de munição para cada projétil que acertava o alvo...

A fotografia de Robby Baumgartner (Ponto Cego) e a edição de Adam Wolfe (Independence Day: O Retorno) auxiliados pelo trabalho das equipes de efeitos visuais das companhias MELS, Scanline VFX, Zero VFX reconstroem elementos chaves da narrativa como os navios de ambas as frotas e as batalhas aéreas, com uma fidelidade ao design de navios, aviões, aliada a uma qualidade de imagem do CGI que equilibra bem o realismo e a necessidade de ter imagens nítidas definidas e, ilustrativas para que a audiência possa acompanhar a narrativa sem se perder, ficando equilibradamente na linha divisória entre um Videogame de alta resolução e um filme realista.

O tenente Wade McClusky (Luke Evans) e Dick Best:
 O experiente ponderado e o "marrento" talentoso...

Ao final, esta produção independente de grande porte (U$100 milhões de dólares), dos estúdios Centropolis Entertainment (de Emmerich), AGC Studios, Entertainment One, Street Enterteinment e da Starlight Culture Entertainment Group e RuYi Media (China) acerta ao procurar mostrar a guerra como algo dramático e grandioso, em que todos dão o melhor de si, superando as suas próprias limitações, mas acima de tudo como algo que se deve procurar evitar, pois todas as promoções e medalhas ganhas em combate não substituem as sequelas, e as vidas que se perdem neste processo.

E tolo é aquele que pensa o contrário...


"- No peito um coração não há, mas duas medalhas sim..."

*United Service Organizations: Organizações de suporte do corpo militar americano, que promovem toda a área de entretenimento das tropas em serviço, promovendo shows, bailes e espetáculos para manter elevado o moral dos soldados em missão longe de seus lares.

Crítica - Séries: Raio Negro – 2ª Temporada




A lágrima clara sobre a pele escura



por Alexandre César

Série leva adiante seus questionamentos

 


Os educadores Jefferson Pierce (Cress Williams) e o seu 
chapa Napier Frank (Robert Towswend): Política X Bem Comum...

 

“- O Conselho tentou assumir Garfield simplesmente porque não trato esses jovens como criminosos! Eles têm dinheiro certo? Têm dinheiro para colocar detectores de metal na entrada da escola? Têm! Têm dinheiro guardas armados? Têm! Mas nunca parecem ter dinheiro para livros, para melhores salários para os professores ou para computadores!”  diz Jefferson Pierce (Cress Williams mais do que à vontade no papel) para o Dr. Napier Frank (Robert Townsend) em certa altura da 2ª Temporada de Raio Negro, mostrando que Freeland continua sendo um barril de pólvora prestes a estourar numa crise racial e social. Aqui, independente dos super-poderes, se discutem temas atuais e de difícil solução, que talvez deixassem o Homem de Aço de cabelos brancos e o bem-nascido Batman com crise existencial. A criação de Salim Akil e Mara Brock Akil é, de longe, a mais madura, com conteúdo mais voltado para o público adulto da DCTV e chega mostrando com bastante tiro, porrada e bomba (e muitos diálogos para refletir) continuando interessante e importante, dando continuidade a uma história de mistério e aventura como poucas.



Ação e questionamentos não faltam como sempre...



O retorno de uma série de TV costuma vir num ritmo mais lento, reapresentando o universo criado e seus personagens, as consequências do que aconteceu na temporada anterior e os aspectos que virão a ser explorados nesta nova etapa, desde que a primeira temporada tenha sido vista. Quem cair de para-quedas logo na segunda temporada vai se sentir meio perdido, pois como ela praticamente emenda com os últimos minutos do último capítulo da primeira, vai faltar uma conexão.




Peter Gambi (James Remar): Pondo à prova suas
 habilidades de técnico e agente e campo...



Para que o Conselho não feche a escola Garfield High Jefferson tem de se demitir e apoiar o diretor que o substitui, Mike Lowry (P.J.Byrne), um burocrata branco numa escola que é predominantemente negra adepto de “tolerância zero”, e que não se importa com os jovens. E numa boa sacada descobrimos em um diálogo que apesar de tudo o burocrata não é tão escroto como nos é apresentado, sendo produto do construto social vigente. Se a série já era boa antes, agora surpreenderá o público com um retorno Incisivo e sem medo de colocar o dedo na ferida, com diálogos a respeito de preconceitos, em especial, o racismo, exibindo amadurecimento e ainda mais camadas naqueles que já são conhecidos, subindo mais ainda o nível. É preciso, evidentemente, prestar atenção aos detalhes, como por exemplo, o da igreja que tem uma imagem de um Cristo negro, para ir compreendendo esse universo narrativo e o seu desenrolar. Assim como foi na temporada anterior, não há pressa de trabalhar seu enredo, fazendo com que o espectador se sinta cada vez mais dependente para entender o que está se passando.




discutindo a relação: Jefferson e sua espoa Lynn 
(Christine Adams) um casal, com problemas reais...




Apesar de todos os conflitos que pipocam ao longo da temporada, é agradável ver como os Pierce não deixam de se unir, funcionando como uma família real, isto se refletindo na ineração entre as irmãs Anissa (Nafessa Williams) a mais velha, e Jennifer (China Anne McClain) quando falam sobre a relação de ter poderes e a ausência de cólicas menstruais ou quando Jefferson e a esposa Lynn (Christine Adams) falam sobre stress e disfunção erétil, como um casal normal. São coisas simples mas que introduzem doses cavalares de realidade cotidiana a uma trama que poderia se resumir a apenas “as aventuras de um negão vestindo uma roupa de neon”. Tecnicamente, a série cresceu o nível de coreografia de suas lutas, passando uma maior veracidade nas mesmas, com uma direção qualificada e uma trilha sonora (sendo difícil não nos lembrarmos de Luke Cage neste quesito) para empolgar o espectador a assistir.




Representatividade LGBTQI+: Zoe B (Andy Allo) e Anissa Pierce 
(Nafesa Williams) a filha-heroína mais velha engatam um breve 
romance, mas Anissa gosta mesmo é de outra bela...

Dentro deste contexto de crítica social, destaca-se o emocionante discurso de Pierce, quando se retira e os alunos invertem a posição e lhe fazem as mesmas perguntas que ele sempre os incitou a responder:
- “Onde está o futuro?” 
-Aqui!” 
- De quem é essa vida?” 
- É minha!” 
- E como vou vivê-la?” 
- Da melhor maneira possível!!!” e se retira com a certeza da missão cumprida enquanto educador.

 

Tobias Whale (Marvin "Krondon" Jones III): Perigo real, 
imediato e palpável, numa performance que 
torna qualquer vilania real.



Paralelo a isso, Anissa, a filha mais velha e militante poderosa se torna uma espécie de Robin Hood de Freeland, engata romance com Zoe B (Andy Allo) uma cantora “livre e solta” fazendo ciúme a Grace Choi (Chantal Thuy) que descobrimos ser meta-humana, mas inibe a manifestação de sua condição com medicação suspeita. Seu arco é apenas sugerido, devendo ser melhor detalhado na próxima temporada.



Perenna (Erika Alexander) treina a 
caçula Jennifer (China Anne McClain)
 a usar os seus poderes...




Peter Gambi (James Remar) após um atentado simula a própria morte, firma o seu papel de “Alfred do Raio Negro”, demonstrando suas habilidades de forma plena. Sem ele, a família Pierce estava limada!!!.

O agente Percy Odell (Bill Duke) paira como uma sombra
 sobre Lynn com a intenção do governo em usar os 
meta-humanos como armas...



O detetive Bill Henderson (Damon Gupton) se mostra mais tolerante com o Raio Negro, protagonizando os dois uma cena de muita importância na série, capaz de abalar relações futuras, com Henderson ajudando o herói na medida em que tal prática não comprometa o seu papel de policial. A semelhança deste relacionamento com a relação BatmanComissário Gordon vai se fazendo cada vez mais evidente.



Tobias se une a inescrupulosa Dra. Jace (Jennifer Riker)
 para criar o seu exército particular de meta-humanos...


Destaca-se como um dos melhores arcos para se acompanhar, o de Jennifer Pierce, cujos poderes estão se manifestando cada vez mais fortes, exibindo ela, habilidades que parecem maiores que a da irmã, talvez se igualando as do pai. Jennifer começa a se consultar com Perenna (Erika Alexander) uma especialista para aprender a controlar seus poderes, sendo interessante essa jornada de uma pessoa que não aceita bem o “dom” que possui e precisa lidar com toda esta força ainda incontrolável, mas por se sentir presa, volta a se relacionar com Khalil Payne (Jordan Calloway), o agora bad boy, fugindo os dois de Tobias Whale (Marvin “Krondon” Jones III sinistro e real como sempre). Ao longo deste arco temos momentos tristes e belos, como o “momento fofo” quando o “paizão” Jefferson lembra da sua menininha ainda criança enquanto o “tio Gambie” testa o novo uniforme da “pimpolha”.

Tecnicamente a série deu um salto, sem perder o foco
 nos personagens, mantendo seu conteúdo.


Whale, que agora conseguiu limpar o nome na justiça, se apresentando como “Cidadão de Bem” e menbro da sociedade, mas continuando a por em prática os seus planos de dominação sobre Freeland. Ele se utilizará dos conhecimentos da Dra. Jace (que descobrimos ter sido quem o usou no passado para testar as fórmulas que lhe deram força e longevidade, que ela usou em si...) e juntos soltam das câmaras de hibernação os cobaias da “green lightpara montar um exército de meta-humanos. Sendo alguns deles conhecido por integrarem um grupo conhecido como Mestres do Desastre (das HQs). Ele caminha para cada vez mais ser um vilão maníaco típico, mas a performance do ator não faz disso um erro tal é a palpabilidade que impõe ao papel.

O policial Bill Henderson (Damon Gupton) dá 
um passo decisivo em sua relação com o herói...


Ao longo da temporada, enfatizando o pano de fundo deste contexto social, vemos diversos jovens negros sendo mortos pela polícia por causa do uso da droga “green light” e também a revelação de que nos anos 70/ 80 foram feitos testes governamentais nos jovens nas câmaras de hibernação. Lynn tem de aprender a lidar com o casca-grossa agente Percy Odell (Bill Duke, perfeito) e faz um acordo com a Dra. Helga Jace (Jennifer Riker) uma médica “a lá Mengelle, presa por experiências não-éticas com humanos para tentar salvar os jovens vítimas da “green light que estão nas câmaras, e cujos envolvimentos com os experimentos feitos na República da Markóvia levam a embates que ainda deverão render desdobramentos futuros.



Gisele Cutter (Kearran Giovanni) a "Cupido" nos quadrinhos
 e Marcus Bishop, o "Tremor" (Hosea Chanchez), um dos 
meta-humanos (do grupo "Mestres do Desastre").


Ao final temos um encerramento com o clássico final família” quando Pierce se permite relaxar e chorar ao se dar conta do quão afortunado é por conseguir passar por tantas atribulações, no meio da tormenta, e conseguir manter os seus em segurança junto a si, coisa que muitos não o conseguiram, o que não é fácil, principalmente ao vermos o gancho mencionado para a temporada seguinte, que promete muitas dores de cabeça (além das atuais) para a família Pierce, e para Freeland, a família maior.



Os Pierce, aconteça o que acontecer, sempre se unem 
para enfrentar os desafios, como uma família deve ser...
 

Uma família sempre é colocada à prova, não importa o tipo de provação...


A família Pierce e Tobias Whale: Conflito longe de acabar...



quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Crítica - Séries: Jessica Jones – 3ª Temporada



O que te faz herói (e) ou vilão(?)...

 

por Alexandre César 


Série se despede levantando questões pertinentes


Nas quebradas da vida Erik Gelden (Benjamin Walker) 
conhece Jessica Jones (Krysten Ritter) e bebe daqui, bebe dali...

E chegamos ao final da parceria Marvel/ Netflix agora na inesperada (e derradeira) 3ª temporada de Jessica Jones, que junto com Demolidor se tornam as únicas séries da casa das ideias na plataforma que conseguiram completar três temporadas. Um feito e tanto apesar de todos os incidentes de percalço.

Trish Walker (Rachael Taylor) e a sua versão dos quadrinhos Hellcat. 
Há uma cena citando o uniforme no segundo episódio...


A heroína desbocada, beberrona e adepta do sexo casual nunca foi (embora sua série Alias, escrita por Brian Michael Bendis, fosse aclamada, obtendo um público fiel) dentro da casa das ideias uma personagem muito famosa, ao contrário de outros personagens do segundo time da editora como seus colegas de microverso urbano Demolidor, Luke Cage, Justiceiro ou até Punho de Ferro sendo de certa forma, em que pese a sua abordagem noir, o corpo estranho do pacote, vencendo muitos desafios fosse nos quadrinhos, fosse na audiência do streaming, chegando ao fim de forma agridoce, seja pela trama seja pelas dificuldades dos bastidores.

Jeri Hogarth (Carrie-Anne Moss) dá uma oportunidade a 
Malcolm Ducasse (Eka Darville). O preço módico: Sua alma...

A pegada de lidar com superpoderes numa escala mais humana, onde seus grandes vilões, ao invés de destruir o mundo, representam o crime em sua forma cotidiana, aquela capaz de afetar de forma direta e visível a vida de cada um de nós, espectadores, foi o que garantiu o sucesso.desta empreitada, agora finalizada uma vez que em breve a Marvel irá produzir conteúdo para o futuro serviço de streaming da Disney, daí a descontinuação desta parceria com a Netflix.

Malcolm faz o que Jeri lhe manda fazer, evitando 
olhar a moralidade de seus atos...

Nesta temporada Jessica Jones (Krysten Ritter, cativante como a antipática e pessimista detetive) faz um acerto de contas com o passado, retomando o tema que permeou toda a série, discutindo os diferentes conceitos de moralidade que a protagonista precisa encarar ao longo de suas investigações. Isso porque nas aventuras anteriores o trauma gerado por Killgrave, o Homem-Púrpura (David Tennant) e o drama envolvendo a sua mãe ditavam os rumos da narrativa. Mas agora, o roteiro foca o tempo presente, pois seguindo o desenlace da temporada anterior, Trish Walker (Rachael Taylor, surpreendendo) após matar a mãe biológica de Jessica e descobrir suas habilidades advindas da cirurgia que a colocou em coma, começa a trilhar o caminho que a tornaria a Gata do Inferno (Hellcat no original) dos quadrinhos.

Gregory Sallinger (Jeremy Bob) o vilão da vez odeia
 visceralmente todo super-humano.

Embora na nona arte ela seja uma heroína que chegou a fazer parte dos Vingadores (da Costa Oeste, e não os originais), no seriado ela está decidida a ser uma vigilante fria e pragmática (abandonando o seu lado “Patsy” de mulher famosa e ex-atriz mirim traumatizada pelo início precoce no show business que aqui ganha a vida num canal de vendas tipo Polishop) que acredita estar fazendo o bem ao matar criminosos que a lei não deteve, algo nos moldes do Justiceiro, entrando aí no debate legal: Quando se trata de supostos heróis que decidem caçar ladrões comuns, a discussão jurídica se torna muito mais complicada. Afinal, os melhores vilões sempre encontram uma razão para justificar as suas ações, e o que os torna vilões é o fato de que essas ações são condenáveis independentemente de qualquer justificativa. Exceto em casos de legítima defesa, é necessário que a Lei condene agressão física; e mesmo em legítima defesa cabe se condenar excessos.

Sallinger usa de seu intelecto para de toda forma colocar
 Jessica na berlinda, forçando-a a decisões difíceis...

Então, com seres superpoderosos vagando pelas ruas, o que diferencia esses heróis de qualquer vilão? Com esse confronto entre irmãs, com Trish, disposta a tomar as decisões que Jessica sempre receou confrontar, estabelecendo as novas dinâmicas em seu relacionamento, e nesse conceito ambíguo de moralidade que reside a maior força da temporada final de Jessica Jones, que acerta em cheio ao retomar o que criou o sucesso da série em sua estreia. Não há combates grandiosos, nem cenas de ação frequentes, nem mesmo uma ameaça capaz de colocar centenas de pessoas em risco. Jessica Jones voltou a ser uma série de investigação que discute a moralidade dos vigilantes, o limite da ação policial e a necessidade de confiar na Justiça. E é nessa temporada, mais do que em qualquer outra do microverso Marvel/Netflix, que essas questões ganham maior relevância. A entrada de um personagem como Erik (Benjamin Walker), por exemplo, que é capaz de “sentir” a “maldade” dentro das pessoas, proporciona argumentos interessantes como a definição de moralidade baseando-se em remorso ou consciência. E nunca deixamos de empatizar com a protagonista em sua cansativa jornada para ser uma “heroína” (ainda que ela nunca queira admitir seus esforços).

O "Lado Patsy": Grace (Jessica Francis Dukes) e 
Trish vendem quinquilharias na TV. "- LIGUE JÁ!!!"

Malcolm Ducasse (Eka Darville) cresce na companhia de advocacia de Jeri Hogarth (Carrie-Anne Moss, bela e gélida na medida) embora se ressinta das implicações morais de seu trabalho. Jeri, já sucumbindo aos sintomas iniciais da E.L.A. (Esclerose Lateral Amiotrófica, a síndrome degenerativa de Stephen Hawking) como mostra de sua luta obstinada contra a doença e de ter controle sobre a sua volta, retoma um relacionamento com uma antiga paixão, manipulando tudo e todos relacionados a Kith lyonne (Sarita Choudhury) sem medir consequências, que cobram o seu preço.

Dorothy Walker (Rebecca De Mornay): a obstinada 
e manipuladora mãe de Trish e sua busca do estrelato...

Embora esta terceira temporada de Jessica Jones seja essencialmente, uma história sobre Trish Walker mostrando o quão importante a sua presença na vida da investigadora (inclusive tendo alguns episódios recontando passagens anteriores sob a perspectiva de Trish) as duas irmãs-agora antagonistas - têm que - mesmo que contra suas vontades - unir forças para enfrentar um novo vilão cruel e ardiloso, retomando brevemente a dinâmica de perseguição apreensiva da primeira temporada.

O detetive Eddy Costa (John Ventmiglia) troca informações
 com Erik para facilitar o seu trabalho e diminuir a ficha dele...

Gregory Sallinger (Jeremy Bob, assustador) se revela um vilão arrogante e desagradável, sem o charme ou a imposição de Killgrave, mas se impõe como um mix de Moriarty (inimigo de Sherlock Holmes) e Hannibal Lecter, criando obstáculos suficientes para tornar o meio da temporada, bem mais envolvente, tendo em vista seu ódio contra pessoas aprimoradas como elas, o serial killer usa o seu intelecto para tornar um inferno a existência de Jessica, já que as dúvidas de Jessica em relação ao seu papel de heroína serão ampliadas pois tanto Trish (a irmã) quanto Salinger (o vilão) são indivíduos cheios de certeza, que acreditam no propósito de sua missão e justificam suas ações, sendo Trish e Salinger, os dois lados da mesma moeda, opostos apenas pelos fins que almejam, tornando a série na disputa pela alma de Trish, cuja jornada se torna essencial para a discutir o vigilantismo e a necessidade dos sacrifícios que definiriam um “herói”...

Jeri na tentativa de reconquistar Kith Lyonne (Sarita 
Choudhury) ao fim descobre que "quem tudo quer..."

A fotografia contrastada de Manuel Bille e Petr Hlinomaz, a trilha sonora sombria de Sean Callery, e a narração deprimente da protagonista, se mostram eficazes para manter a atmosfera noirda série consistente e distinguível, revelando o potencial da série para tal qual O Justiceiro ser viável fora das adequações ao estilo do Universo Marvel. Em que pesem as referências ao universo dos comics (o próprio vilão possui uma versão nos quadrinhos), tais elementos estão longe de ser o prato principal da série neste terceiro ano.

Dor de Cabeça (literal): Erik ajuda Jessica com o
 seu poder de sentir "o mal das pessoas"...

Por fim, em sua despedida Jessica Jones cresce e amadurece, dando um fim digno à parceria Marvel/Netflix, além de dividir os holofotes com Trish Walker, discutindo os limites entre a responsabilidade dos poderosos e a necessidade de seguir a lei, um tema que ressoa em todos os arcos desenvolvidos nessa personagem que sempre caminhou pelas zonas cinzentas da legalidade, mas é aqui nesta terceira temporada que esta questão ganha o primeiro plano. Em que pesem as barrigas narrativas (os malditos 13 episódios obrigatórios do formato) o elenco brilha construindo relações impactantes e, fazem a temporada extremamente satisfatória, fora as participações vindas de outras séries-irmãs do universo de Os Defensores, que dá a vontade de acompanhar por mais tempo esses personagens além da investigadora particular em sua jornada, mostrando, mais uma vez, que é a melhor no que faz. Nada mal para aquela que poderia ser a “Rê Bordosa*da Marvel.

Mandando para a "Balsa" ** : Luke Cage (Mike Coulter) aparece 
para aconselhar Jessica quanto a necesssidade de deter Trish...

* : Personagem do quadrinista Angeli das revistas underground Chiclete com Banana 
 ** : Prisão especial para criminosos super-poderosos, que aparece nos quadrinhos no desenho animado Os Vingadores: Os Super Heróis mais Poderosos da Terra e também no filme Capitão América: Guerra Civil (2016) dos Irmãos Russo

Crítica - Filmes: A Grande Mentira




171, entre outros números...

 

por Alexandre César


Hellen Mirren e Ian McKellen em trama instigante


Abra bem os seus olhos...


2009. A bela viúva Betty McLeish (Helen Mirren, Oscar por A Rainha e de A Maldição da Casa Winchester e Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw) procura conhecer alguém num site de relacionamentos, e depara com o encantador Roy Courtnay (Ian McKellen das trilogias O Senhor dos Anéis e O Hobbit) que rapidamente ocupa espaço em sua vida, e apesar das reservas de seu neto Stephen (Russell Tovey de Quantico) ela investe nesse relacionamento, e como poderia ser diferente? Roy é charmoso, elegante, bem falante e divertido, e demonstra bastante apreço pela doce viúva, não fosse um pequeno detalhe: Roy é um golpista safado, que vive de ludibriar os outros, e que se fosse pego nos países islâmicos, não teria uma, mas as duas mãos cortadas. Embora planeje convencer a viúva a entrar num negócio fajuto, visando limpar seus substanciais fundos até deixá-la sem nada Roy começa a lutar com a ideia de estar realmente se afeiçoando a Betty, colocando-o num impasse.


Roy Courtnay (Ian McKellen) e Betty McLeish (Helen 
Mirren): Relacionamento em tempos de internet...


Dirigido por Bill Condon (Oscar pelo roteiro de Deuses e Monstros que dirigiu com McKellen indicado como melhor ator) A Grande Mentira (2019) equilibra bem humor, drama e tensão numa história de golpes, expectativas e surpresas. McKellen, com a competência de sempre, nos mostra a forma como Roy, junto com seu parceiro de golpes Vincent (Jim Carter de Downton Abbey) cativa as suas vítimas, homens de negócios em busca de investimentos de lucro rápido (não importando se lícitos ou não...) na melhor tradição de “ladrão-que-rouba-ladrão”,e embora seja um personagem cativante rapidamente nos mostra que ele não exita no uso da violência para assegurar os seus ganhos ou para manter os seus disfarces, de forma rápida, contundente, e até letal, pois só porque é um velhinho simpático, não podemos esquecer que criminosos também envelhecem (e se estiverem na política, envelhecem e se aposentam muuito bem).


O neto de Betty Stephen (Russell Tovey) sente 
que Roy não é esse "Príncipe" que sua avó diz....

O roteiro de Jeffrey Hatcher (Sr. Sherlock Holmes) a partir do aclamado livro de Nicholas Searle (não publicado no Brasil) trabalha as circunstâncias do encontro entre esses dois idosos, com situações até previsíveis, dada a premissa simples da história, mas surpreendendo nas reviravoltas e nas motivações de seus personagens, bem como nas suas origens, mostrando o quanto um fugitivo pode se viciar na adrenalina de estar sempre fingindo ser quem não é, ou como adolescentes despeitados podem ser destrutivos em momentos históricos perigosos ou como pessoas esquecidas podem voltar do passado para ajustar contas. A vida sempre surpreende...


Roy tem como aliado Vincent (Jim Carter) em 
seus golpes na área financeira...

A elegante fotografia de Tobias A. Schliessler (A Bela e a Fera) e a montagem de Virginia Katz (Sr. Sherlock Holmes) habituais colaboradores de Condon situam bem a trama e sua atmosfera, entre a casa de Betty num condomínio e os Nightclubs e apartamentos alugados que Roy usa para seus golpes, havendo uma mudança interessante na palheta de cores quando os protagonistas viajam para Berlim, e em alguns momentos ficando com um ritmo narrativo que remete à O Mistério de Berlim de Steven Soderbergh (2006) quando são revelados dados do passado de Roy.



Roy, escorregadio como só ele, faz de tudo
 para driblar Stephen...

Reflexos: Roy esconde segredos sobre as suas origens...

O desenho de produção de John Stevenson (Burton e Taylor) capta o estilo cotidiano da casa rural e Betty, a falsa imponência dos escritórios de araque usados para golpes na área financeira e a passagem do tempo nos ambientes berlinenses da época e dos anos do antes e do pós-Segunda Grande Guerra de forma sutil, da mesma forma que os figurinos de Keith Madden (Patrick Melrose e Sr. Sherlock Holmes ) caracterizam as personalidades de seus personagens, seja na delicadeza dos vestidos de Betty seja na simplicidade dos trajes de Roy quando quer parecer “um bom velhinho” inofensivo que usa boina e guarda-chuva ou na imponência dos seus bem cortados ternos quando quer se passar por um poderoso banqueiro, como um camaleão, tudo com sutil elegância, se bem que, Mirren e McKellen são elegantes até mesmo como mendigos, não conseguem evitar...


Velho mas não indefeso: Roy mostra quando 
necessário ser perigoso e mortal...

Condon, conduz a trama de forma eficiente, embalado pela trilha sutil de Carter Burwell (Três Anúncios para um Crime, Carol) que sublinha a ação seus intérpretes, sem chamar atenção para si, permitindo que “duelem” seja no gestual, ou num olhar, revelando certezas e dúvidas, mostrando que nem sempre o mais competente enganador é aquele que se orgulha de seus logros (“-Você não está nisso pelo dinheiro Roy!” lhe diz o seu amigo Vincent em certa altura “- É pela adrenalina do jogo!!!” ) e se julga verdadeiramente senhor de seus atos...


Ao final, Roy atinge o seu objetivo... ou não?


A Grande Mentira vale a ida ao cinema se você acha que vale ver o desenrolar de uma trama baseada apenas em boas interpretações, uma história bem amarrada e uma boa condução narrativa, no melhor estilo inglês, com um humor sutil, momentos de ação inesperados e doses dramáticas na medida que a história pede, de forma equilibrada, coisa rara nestes tempos de Tiro, Porrada & Bomba...


Betty: "- Você me ama?" 

Roy: "- Eu tenho uma grande afeição por você..."