Páginas

quinta-feira, 5 de março de 2020

Crítica - Séries: Star Trek: Discovery 2ª Temporada



Retcon, avante!


por Alexandre César


Temporada se firma e ao final abre possibilidades




Quando se tinha uma narrativa de um personagem popular sendo narrada há muito tempo, ia-se, de vez em quando (para situar os fãs tardios) em histórias de linha, sendo rememorados algumas passagens da trajetória desse personagem, sempre mudando de forma cosmética alguns detalhes para que a narrativa fosse o mais contemporânea possível, e o personagem não ficasse datado. A isto chamamos de RETCON, pois atualizamos detalhes e referenciais de época, mas sem interferir no fluxo da trama que continua seguindo desde a sua gênese.


Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) entre Nhan 
( de vermelho) e o Cap. Christopher Pike (Anson Mount, 
de mostarda) e atrás Saru (Doug Jones) entre o sauriano
 Linus e o ten. Connolly (de azul), quase 
um "camisa-vermelha"...

 Às vezes, por razões comerciais e criativas, após um certo tempo decorrido se faz necessário reiniciar todo aquele universo ficcional do zero, pois muitas das relações entre os personagens, seu mundo e suas próprias concepções já não causam mais identificação, não ecoando ao grande público-alvo, ficando datadas e virando objeto de consumo de um nicho restrito. A isto chamamos REBOOT, pois aqui os personagens e seus elementos retornam (ou melhor, reiniciam) procurando cativar uma nova geração de fãs, que de outro jeito só os olhariam como “coisa de velho”.

Pike,logo mostra ser bem diferente do antecessor Lorca,
 e muda o mobiliário da sua sala, colocando cadeiras.

Daí, nos quadrinhos, os constantes recomeços das histórias de Batman, Superman (personagens com mais de 75 anos) na DC Comics e ocasionalmente na Marvel, e no cinema e TV. Temos James Bond, o 007 que ao mudar de ator de Pierce Brosnam para Daniel Craig, ter recomeçado toda a trajetória do agente de Sua Majestade, pois o mundo era outro bem diferente desde a época dos filmes de Sean Connery; e quando J.J.Abrams lançou em 2009 Star Trek, ele usava do ardil da viagem no tempo para retomar o universo de Kirk, Spock, Mc Coy e Cia. Com novos atores e sintonizado a uma audiência que, de outro modo, não se aventurariam a tomar contato com algo que já tinha na época mais de 40 anos, ou seja: uma “coisa de velho”.

Os efeitos visuais estiveram como sempre impecáveis,
 seja nas cenas de exploração, como nas de batalha.


Tendo sido lançado em 2018, dividindo os fãs, mas alçando com sucesso uma nova base de fãs, Star Trek: Discovery
chega agora a sua 2ª Temporada com a missão de corrigir os erros da temporada anterior e resgatar os valores e o espírito da série clássica, se revelando não só um prequel (quando relatamos acontecimentos anteriores de uma narrativa já estabelecida, mostrando como as coisa aconteceram para os personagens e seu panorama se formarem), mas na realidade, um grande retcom feito na cara-dura, como se a série original nunca tivesse sido descontinuada e sim continuado ao longo das décadas, incorporando os avanços tecnológicos no uso de materiais de cenografia, figurino, maquiagem e efeitos visuais que tivessem surgido ao longo destes mais de 50 anos. “Moleza” não?

Saru cresce nesta temporada, atingindo um 
novo patamar, e crescendo na sua relação
 com Michael.

Começando a trama direto do ponto final da 1ª Temporada, quando fomos apresentados à “velha” U.S.S. Enterprise (na verdade uma senhora repaginação do modelo clássico) já tomamos contato com o tema central da trama desta temporada: As ações de misteriosas entidades chamadas de “Anjos Vermelhos”, que aparecem em vários trechos da galáxia, e pela natureza de suas atividades e poderes demonstrados, dominam uma tecnologia de natureza espaço-temporal, muito maior do que a da Frota Estelar, ainda recém-saída da guerra contra o Império Klingon, que dizimou centenas de milhões, e ainda fragilizada para ter de encarar uma possível ameaça.

A sarcástica engenheira Jet Renno 
(Tig Notaro) foi uma ótima adição
 à tripulação.

Temos em adição ao universo de personagens que gravitam em torno de Michael Burnhan (Sonequa Martin-Green, bem, mas em muitas vezes um tom acima do ideal) a chegada do icônico Capitão Christopher Pike (Anson Mount, ótimo) que de cara nos cativa como seu jeito ao mesmo tempo aventureiro e líder responsável estilo Old School e mais adiante, o jovem Tenente Spock (Ethan Peck, surpreendente) em torno do qual se foca a trama desta temporada, resgatando as feridas de sua vida familiar e, mostrando o porque é um dos maiores pilares da mitologia Treker.


Jefrey Hunt ou Anson Mount? Escolha o seu Pike...

Inicialmente a temporada se ressentiu de deixar todos os outros personagens pouco desenvolvidos, girando em torno de Michael, que embora seja a personagem principal, não é a capitão, e pela lógica não deveria ter a palavra final, ficando em alguns momentos um clima estranho tipo “afinal, quem manda nesta banheira?”

 
"- Cadê o Neo ou o Capitão Nemo, quando precisamos deles!?!"


  Felizmente mais adiante os personagens voltam a serem definidos, destacando Paul Stamets (Anthony Rapp), bem como a alferes Sylvia Tilly (Mary Wiseman) que foi a mais prejudicada, ficando na maioria das vezes como (irritante) alívio cômico, mas reencontrando o equilíbrio ao final. Temos o retorno da Capitã (Imperatriz) Philippa Georgiou (Michele Yeooh, ótima) e Ash Tyller (Shazad Latif), o klingon tornado humano cirurgicamente, que agora são agentes da temida “Seção 31”, a CIA da Frota Estelar, com suas “black operations” (que será objeto de uma série derivada de Star Trek: Discovery).

Direto do "Universo -Espelho" : Capitã/ 
Imperatriz Philippa Georgiou (Michele Yeooh)


Todos tiveram o seu espaço, inclusive o Dr. Culber (Wilson Cruz) que retorna dos mortos num arco superinteressante, se tornando um ótimo personagem (na temporada anterior ele era basicamente apenas “o companheiro do Stamets” e só) mas quem definitivamente cresce é Saru (Doug Jones) que se torna o personagem-face da série, como Spock era da série clássica, Data era de Star Trek: A Nova Geração
e até mesmo Odo era de StarTrek: Deep Space Nine. Jones, auxiliado por um bom texto, torna o kelpiano um dos mais queridos alienígenas da atualidade com uma performance inspirada e sensível, indo do inocente ao trágico ou ao irônico com nuances que o tornam real, passível de identificação e empatia com a audiência (Já deve haver muitas crianças querendo um bonequinho dele...). 
Sylvia Tilly (Mary Wiseman), Joann Owosekun (Oyin 
Oladejo), Keyla Detmer (Emily Coutts), na visão de 
Airian: Personagens e não, adereços.
Além dos personagens fixos, começamos a conhecer o resto da tripulação, permitindo-nos conhecer quem são as tenentes Joann Owosekun (Oyin Oladejo), Keyla Detmer (Emily Coutts), R.A. Bryce (Ronnie Rowe Jr.), Gen Rhys (Choon-Kwok Patrick), a tenente-comandante Airian (Hannah Cheesman), entre outros, que vão deixando de ser apenas parte da cenografia. O problema é quando um personagem não é desenvolvido a série inteira e quando finalmente nos dão a chance e conhecê-lo, é no episódio em que ele morre... Aí fica difícil se criar empatia pelo personagem e lamentar a sua perda (por melhor que seja a cerimônia do funeral...). 
Airian (Hannah Cheesman): Oriegem revelada.
Houve a adição de novos personagens como a irônica engenheira Jett Reno (Tig Notaro), e a comandante Nhan (Rachael Ancheril) a nova chefe da segurança, egressa da Enterprise e Leland (Alan van Sprang) o chefe da Seção 31 que disputa o poder com Georgiou palmo a palmo numa relação que beira o cartunesco...
A nave-símbolo da unificção das casas Klingons: O D7.
Os novos showrunners Alex Kurtzman e Michelle Paradise demonstram grande conhecimento desse universo narrativo tal é a eficiência com que pontos críticos da temporada anterior vão sendo consertados em poucos episódios e empurrando a narrativa da história principal adiante. Soluciona-se o problema do visual dos klingons, e numa narrativa digna de Game of Thrones se define os destinos de L´Rell (Mary Chieffo) e de Ash Tyller/ V´oq permitindo inclusive o vislumbre da futura armada com os clássicos cruzadores D-7, marca registrada do Império Klingon. 
Funeral no espaço: Remetendo à cena icônica
 de "Star Trek II - A Ira de Khan" (1982).
Os icônicos e cabeçudos talosianos, do piloto rejeitado 
"The Cage" (1964) são repaginados num episódio antológico...
Vários outros elementos canônicos começam a ser introduzidos, como a mostra dos novos uniformes que irão ser introduzidos na frota, ficando de parabéns a figurinista Gersha Phillips... ao reimaginar os coloridos uniformes da federação com a tecnologia têxtil atual, lhes dando uma imponência que faz a tripulação da Discovery parecer um bando de operários de manutenção. Temos ainda a breve aparição da Número Um (Rebecca Romjin), que vem à Discovery para atualizar o capitão Pike sobre os reparos da Enterprise, que teve uma falha completa de sistemas por uma incompatibilidade com o sistema holográfico de comunicação e, Pike ordena que ele seja todo removido, aderindo à comunicação por tela, que já era sua preferência pessoal (agora, isto é tão “lógico”como ter uma placa de vídeo defeituosa, e você preferir tirá-la e não substituir por outra placa...) Ora bolas...
Leland (Alan Van Sprang), da "Seção 31", Spock 
(Ethan Peck) e Michael: "Jogo-de-gato-e-rato"...
Mas ainda tivemos o já antológico episódio “If Memory Serves” em que revisitamos o planeta Talos IV, mundo do piloto original “The Cage” de 1964 (piloto original recusado que depois Gene Rodenberry reaproveitou no episódio de duas partes “The Menagerie”) num ótimo trabalho de atualização do mundo alienígena e se permitindo uma introdução com o material original que poderia ter sido um desastre caso não tivessem usado da edição esperta que utilizaram, num ótimo fanservice, pavimentando o caminho para a série clássica. Aliás toda a reimaginação do universo clássico mostra a competência do desenho de produção de Tamara Deverell, que joga para escanteio todo o esforço dos filmes de J.J.Abrams, que tinham grandes sacadas, mas na comparação perdem feio...

Ash Tyller/ V´oq e L´Rell (Mary Chieffo): Klingons voltam a parecer klingons.

Posteriormente algumas ideias foram colocadas apesar de um desenvolvimento questionável, como no episódio “Project Daedalus”, decorrente de falta de conceituação de alguns roteiristas com relação a conceitos como upload e download (e principalmente as suas diferenças...) levando a absurdos como uma Inteligência Artificial querer baixar atualizações que lhe trarão a consciência, mas como se pode “querer” sem ter “consciência”??? Graças ao “Grande Pássaro da Galáxia” Jonathan Frakes estava na direção, salvando a missão de naufragar... 
Paul Stamets (Anthony Rapp), tira "um parasita"
 de Tilly, sob o olhar de Saru...
A "Número Um" (Rebecca Romjin) e Pike: Personagens
 de "The Cage" repaginados e mostrando o seu valor.
Aos poucos foi-se “arrumando a casa”, entre um deslize ou outro, surgindo momentos únicos, restaurando o cânon ao final e a sua batalha final apoteótica, pois ironicamente a mesma Discovery que com sua presença subvertia todo o universo Treker (tal qual um “elefante na sala” como diziam os mais puristas...) revitalizou-o para uma nova geração e agora, ao sair rumo a novos destinos que a terceira temporada haverá de se descortinar, e em novas séries derivadas já programadas, como duas animações (uma para o público infantojuvenil pela Nickelodeon e outra voltada para um público mais adulto) e as séries focadas na Seção 31 e outra centrada em Jean-Luc Picard (Patrick Stewart) fora a possibilidade de um série mostrando a Enterprise antes da Série clássica sob o comando de Pike, que provou ser um sólido pilar na mitologia Treker... afinal, não podem ter investido o dinheiro que gastaram na construção dos cenários e figurinos da NCC-1701 apenas para dois episódios... 
E eis os D-7 de volta!!!
Vamos assinar o abaixo assinado para a CBS pedindo mais Pike galera!!! 
A Enterprise antes de um certo James Tiberius sentar na cadeira...
Star Trek: Discovery na sua segunda temporada conseguiu o mérito de novamente trazer para o centro das atenções um rico universo ficcional que ao tentar se firmar no cinema, foi ficando gradativamente engessado a um nicho, tornando-se assim não relevante, uma “Coisa de Velho”. Esperemos que agora que a franquia reconquistou o seu veículo ideal (a TV e agora o streaming) os “donos” da franquia não explorem em demasia causando uma superexposição como foi nos anos 1990-2000, dando intervalos regulares entre uma produção e outra para evitar a sua saturação. Que a ganância seja dosada... Houveram sim coisas destoantes, mas foi justamente por causa do hiato em que a franquia foi se confinando num gueto, e perdeu audiência, surgindo toda uma geração que desconhecia e não se identificava com Star Trek, mantendo a sua coerência é verdade mas precisando que novamente se fizesse o trabalho de se ensinar ao grande público, entre erros e acertos, o que é a nossa Jornada nas Estrelas.



Crítica – Filmes: O Melhor Está Por Vir





Amizade acima de tudo

por Alexandre César


Bruel e Luchini brilham em comédia adulta e inteligente


A leveza no trato de uma questão assustadora para a maioria...

Ying & Yang, água & óleo. Dois amigos improváveis desde os tempos do internato. César Montesiho (Patrick Bruel de Os Meninos Que Enganavam Nazistas) é um bom-vivant que se mete em mil e umas estrepolias, saindo de um relacionamento a outro sem culpas como um adolescente de meia para terceira idade. Arthur Dreyfus (Fabrice Luchini de Sem Palavras) é um médico pesquisador metódico e “certinho” que ainda é apaixonado pela ex-esposa, a também médica Virgínia (Patrice Arbilot de Estaremos Sempre Juntos) com quem tem uma filha, a adolescente Julie (Marie Narbonne de Play) e segue a sua vida solitário no seu trabalho onde o chefe incompetente (Phillipé Resimont de Mecânica das Sombras) leva toda a fama e se “borra” de ter de dispensar algum membro da equipe pois não dará conta do trabalho.

Arthur Dreyfus (Fabrice Luchini) e César Montesiho (Patrick Bruel): Nunca dois amigos tiveram tão pouco em comum, e por isso tanto se irmanaram...

Após uma jogada financeira que o arruinou, César sofre um pequeno acidente e faz um exame com o cartão do plano de saúde de Arthur (e óbviamente, os exames saem no nome deste) sendo depois chamado pelo Dr. Cerceau (Thierry Godard de Atentado em Paris) pois as radiografias revelaram um câncer agressivo e incurável. Arthur, ao tentar explicar o acontecido ao amigo, se enrola, levando o amigo a um enorme mal-entendido, acreditando que Arthur está condenado, disponibilizando-se a cuidar do amigo de infância pelos meses de vida que lhe resta. Arthur permite que a farsa se mantenha e ao final os dois acabam cuidando um do outro e aprendem a deixar tudo para compensar o tempo perdido.

César aproveita cada bom momento da vida como se não houvesse amanhã...
Arthur vive em meio a suas neuroses de caa para o trabalho e do trabalho para casa...

Roteirizado e dirigido por Matthieu Delaporte (De Volta Para o Passado) e Alexandre De La Patellière (22 Balas) O Melhor Está Por Vir (2019) reedita a parceria de longa data da dupla apresentando uma comédia dramática que se aprofunda na amizade entre o tímido Arthur e o exuberante César, sendo o mal-entendido entre eles o artifício que permeia toda a trama, virando suas vidas de cabeça para baixo por conta do tabu do câncer, discutindo assuntos sérios e desconfortáveis como doença e morte, mostrando leveza e descontração ao abordar a fragilidade da vida em várias facetas como a cena em que César se aconselha com um padre (André Marcon de O Oficial e o Espião) sobre como rezar pela alma de Arthur, ou quando ele faz contato com Randa Ameziane (Zineb Triki de O Melhor Professor da Minha Vida) uma sobrevivente do câncer que dirige um grupo de aconselhamento de doentes. A direção de atores faz os menores personagens se sobresairem em olhares, tons de voz e sutilezas pequenas mas suficientes para deixarmos de ver personagens e aí, percebermos pessoas reais como Bernard (Jean-Marie Winling de Promessa ao Amanhecer), o pai de César, com quem estava brigado há anos, mas em duas linhas de diálogo sobre coisas banais vemos a reconciliação de pai e filho sem pieguismos e chorumelas.

César faz contato com Randa Ameziane (Zineb Triki) visando apoiar o amigo "desenganado"...
Arthur é desafiado por César  a mostrar como se paquera uma mulher, com resultados hilários...

A bela e sutil fotografia de Guillaume Schiffman (O Artista) auxiliada pela edição de Célia Lafitedupont (O Orgulho) e Sarah Ternat (Luna) traz ótimos momentos como quando num restaurante César ensina a Arthur a como paquerar uma mulher, sendo os dois confundidos com um casal gay ou quando os dois estão descontraindo na discoteca, onde a trilha musical de Jérôme Reboutier (Saara) inclui hits dos anos 70 e 80 do auge deste período clássico mas hoje em dia uma gostosa “coisa de velho”, ou ainda quando mudando de ares, César consegue arrastar Arthur (que tem medo de avião) para se consultar com o um médico (Rajat Kapoor) na Índia.

Randa acaba se mostrando mais importante do que se aparenta...

O design de Produção de Marie Chemical (O Que Nos Liga) define bem os espaços onde vivem os personagens como o espaçoso apartamento do solar e energético César, cheio de obras de arte que ele tem de vender para pagar as dívidas, mas ainda determinado a compartilhar momentos mágicos com o apático Arthur (que ele acredita estar condenado a morte) preso em suas neuroses vivendo num grande apartamento amontoado de livros, coisa que se reflete nos figurinos de Anne Schotte (A Família Bélier) que mostra o estilo mais descolado do vaidoso e seguro César em contraste com os trajes convencionais de aspecto meio largado do modesto Arthur.Inicialmente caricatos, cada qual do seu lado, estreitam os laços de amizade e amor que se estendem face a implacável realidade.

Ao final ambos exorcizam seus fantasmas face à inevitabilidade dos fatos...
 O saldo final do filme é extremamente positivo ao saber dosar risos e lágrimas, tendo a coragem de abrir a necessidade de encararmos o fato de que talvez mais importante até do que o nascimento (quando todas as apostas estão em aberto) a morte é que é o grande momento da vida, quando na avaliação final vemos o quanto fizemos valer as nossas fichas no jogo da existência e, o quanto os parceiros do carteado gostaram de partilhar do jogo conosco.
 

"- Ele era doido, mas eu adorava o cara! Que saudade!!!"

 

terça-feira, 3 de março de 2020

Crítica - Séries: Westworld- 1ª Temporada





Quando John Ford encontra Philip K.Dick na Matrix de Jurassic Park


por Alexandre César

Anthony Hopkins e sua melhor performance de um deus
 compilação dos textos publicados originalmente em 22/ 11/ 2016 e 09/ 12/ 2016 na página do Facebook


E o trem chega à cidade frenética da fronteira...



Tudo começa assim: Teddy Flood (James Marsden de X-Men) um jovem cowboy acorda num trem percorrendo lindos canions apresentados em imagens panorâmicas de fazer babar. Ele chega a uma cidade após o que parece ser uma ausência prolongada e, entre outras coisas, revê seu antigo interesse amoroso: a bela Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood). Após uma promissora retomada de relacionamento, ele acompanha a jovem de volta ao rancho em que mora, onde ambos testemunham a família dela ser chacinada por pistoleiros. 

Teddy Flood (James Marsden) & Dolores Abernathy (Evan 
Rachel Wood): Casal fofo e perfeito no oeste feio e imperfeito...


O galante cowboy elimina os malfeitores com tiros precisos. Quando o problema parece resolvido, surge um sinistro pistoleiro vestido de preto que, inesperadamente, não é abatido pelos tiros à queima roupa do herói, para seu desespero e perplexidade. Em seguida o pistoleiro alveja o cowboy que, enquanto agoniza, vê, impotente, a sua amada ser arrastada pelo “monstro” para o interior de um celeiro, onde a sujeitará a toda sorte de crueldades. Uma rotina que, segundo as palavras do vilão, ele já está acostumado a fazer há mais de 30 anos.  

A Bela e a Fera: Dolores e o "Homem de Preto" (Ed Harris)...

Concebido pelos roteiristas Lisa Joy e Jonathan Nolan, e invertendo a ideia que o telespectador deve ter de quem é humano e quem é andróide, Westworld, série da HBO, nos surpreende mostrando um humano - o “Homem de Preto” (Ed Harris, como sempre, brilhante) - que nos remete ao androide interpretado por Yul Bryner no filme de 1973, de Michael Crichton, no qual a série se baseia, investindo pesado em questões filosóficas, existenciais e éticas tendo como grande trunfo, além da ótima produção, roteiros consistentes e atuações brilhantes e precisas.


Ed Harris & Yul Bryner: o novo e o 
velho "Homem de Preto".


O início da série só reforça a crença do telespectador de que o recém-chegado Teddy seria o humano de férias naquele parque temático de última geração, quando na verdade era um andróide seguindo a sua programação rotineira, sabe-se lá há quanto tempo. Uma identidade remetendo a outra - fato que ao longo da série deve se intensificar, uma vez que seu mote principal tem sido esse: a Identidade e sua conceituação, construção (aqui mesclada com o despertar da consciência), evolução (decorrente do ato de aprender a fazer escolhas) e todas as suas consequências.


Tecnologia de dar inveja aos parques temáticos da Disney...


 A começar temos a identidade visual do parque, que, diferente do filme de 1973 (que nos remetia aos seriados de TV ou faroestes “B”) é beneficiado por uma boa produção e apresenta em alguns momentos imagens espetaculares, evocando obras do diretor John Ford, aquele que como ninguém forjou o western, um gênero cinematográfico americano por excelência. Ford construiu o aspecto épico do Velho Oeste como pedra lapidar da identidade do mito americano. Ele, como ninguém, colocou o cowboy e o índio no mesmo patamar dos deuses e guerreiros greco-romanos.  

Bernard Lowe (Jeffrey Wright) e o Dr. Robert Ford 
(Anthony Hopkins): Castor e Pólux?

Dessa identidade temos o chamariz do público ao qual o Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins) se refere: “- Os clientes voltam não para descobrir quem são, mas descobrir quem poderiam ser”. Tal qual os androides, presos a sua programação, os próprios humanos são vítimas de seu próprio condicionamento, atraídos pela ideia de criar e viver uma outra identidade, um faz-de-conta de brincar de cowboy no qual, na maioria das vezes, dão vazão em forma de catarse aos seus impulsos sociologicamente trancados de matar e violentar os androides, seus pobres brinquedos, sendo uma experiência visceral que traria os visitantes de volta, pois, de tão apaixonante, seria irresistível não querer repeti-la, podendo depois voltarem tranquilos para casa, como quem retorna a sua vida comum após uma maratona de “Call of Duty” ou “Carmagedon”, para jantar, beijar a esposa e as crianças, e depois dormir o sono dos justos.

Dolores: Ser ou não ser... um ser vivo?


No futuro indeterminado da série, acompanhamos os personagens em um parque temático, com cenários habitados por androides e ambientado no Oeste Selvagem, que dá aos convidados uma experiência de imersão total numa realidade “mais simples”. Lá podem dar vazão às suas fantasias de ser cowboy, índio, xerife, caçador de recompensas, soldado etc... porém, não podemos ignorar que estamos lidando com a Humanidade – sim, a Humanidade. Para ela, o maior chamariz de um lugar desses é o fato de ser um ambiente onde você não seria punido se deixasse de levar em conta os limites impostos pela sociedade, propício para extravasar desejos reprimidos de dominação, aventura, violência e... sexo.


Logan (Ben Barnes) e William (Jimmi Simpson): Ying e Yang?


 Essa nova identidade - ou possibilidade de reinvenção da própria identidade - se mostra de forma intensa em casos de indivíduos presos a suas histórias pessoais, como o recatado William (Jimmi Simpson), que vai a Westworld com seu futuro cunhado, o hedonista Logan (Ben Barnes). William é cheio de receios em relação aos prazeres do parque, mas vai gradativamente se soltando ao abraçar a “narrativa” de uma possível aventura com Dolores.  

Bernard e Charlote Hale (Tessa Thompson): A voz da 
consciência versus a voz da corporação...

Já o “Homem de Preto”, se revela um filantropo bilionário - já que, há cerca de trinta anos, sempre tira suas férias lá (ao "módico" valor de 40 mil dólares ao dia...) – busca um sentido para a vida ao procurar o “labirinto”, pois, segundo ele, “naquele mundo tudo tem um sentido, diferente do mundo real que é caótico”. Podemos dizer que, baseado no que foi visto até o episódio 7 ("Trompe L'Oeil"), ao seu jeito ele é um peregrino atrás de algo que dê sentido a sua própria existência busca (de Deus, de redenção?), enquanto extravasa seus instintos básicos reprimidos de forma intensa e brutal neste parque temático de alto nível, onde a integridade dos visitantes está garantida por uma trava de segurança: Eles podem “ferir” e “matar” os chamados “anfitriões” (androides), mas, devido a sua programação, estes robôs não podem matar os clientes. Assim, não importa o quanto o humano visitante fuzile, esfole ou estupre os indefesos seres artificiais. Ele certamente estará a salvo de represálias. Ou não?

Ambiente de imersão total. Video Game é coisa do passado...


 Diferente dos outros visitantes, o "Homem de Preto", se distancia  em suas atitudes, sendo que em suas primeiras vivências no parque ele abriu e virou pelo avesso um dos androides e admirou “a maravilha mecânica que era, diferente dos tempos atuais que é sujo e sem graça como nós”... Ele rejeita a aproximação estrutural da criatura ao seu criador, por achar a carne e o sangue vulgares em comparação aos modelos sintéticos que lá encontrou - pelo que se vê dos processos de construção dos androides, é provável que eles sejam compostos na maior parte de material orgânico sintetizado, no melhor estilo dos replicantes de Blade Runner (1982). O “labirinto” parece ser o seu “Santo Graal” que saciará a sua sede de... só ele sabe o quê. 

Dr. Robert Ford: Anthony Hopkins em seu melhor papel de Deus

Na outra extremidade da linha temos os androides, presos a sua rotina programada de ser o que os programadores decidirem que eles serão (ou não?). Neste ponto, a grande contribuição do fabricante de sucessos J.J.Abrams (um dos produtores executivos da série) foi apresentar o ponto de vista dos anfitriões a respeito do mundo a sua volta e sobre as incongruências que gradativamente vão reparando nele, apesar de todas os reinícios de programa e apagamentos de memória que os funcionários do parque vão lhes impondo. Elas aparecem através de fragmentos de memória, questionamentos e, eventualmente, consciência de si mesmo e desejo de liberdade e no decorrer da série vão gradativamente - através de atos falhos e repetições de restos de programações anteriores não deletadas - ganhando consciência, e diferentes dos humanos, que são presos, sem o perceber, aos condicionamentos sociais, psicológicos, econômicos, afetivos e de outras naturezas...

Prenúncio do desastre: A segurança começa a registrar 
padrões estranhos no comportamento dos "anfitriões"...

Este "despertar"* é algo indesejável aos seus mestres, pois, da consciência de como eles são vistos e usados, virá a rebelião! E escravos quando se rebelam não costumam ser muito compreensivos com seus donos e torturadores... Vide Spartacus. Temos aí a catástrofe anunciada do que serão os episódios finais da série... Mas vamos nos ater à esta narrativa do fim do ciclo de uma espécie que dá a abertura para o ciclo de uma nova. Transição essa que não será isenta de traumas e de esperanças. Ao término desta 1ª temporada, chegamos à conclusão de que a humanidade continua repetindo os mesmíssimos erros, que se lhe legaram a posição de líder na cadeia alimentar, lhe deixou um vazio no peito que ela compulsivamente procura tapar, em vão com as mesmas atitudes que fatalmente lhe trarão o fim.

John Ford aprovaria: A fotografia valoriza  cada 
aspecto das paisagens espetaculares...


Nestas reviravoltas quanto a verdadeira identidade e natureza de personagens temos a ascensão de duas mulheres à condição de protagonistas: a doce Dolores e a passional Maeve Millay (Tandie Newton), tal qual as duas faces de uma moeda. Ambas caminham para descobrir a “verdade”, se é que temos real consciência do que ela seja no contexto da série. A cordial rancheira vai gradativamente abandonando o papel de Polianna, que “sempre procura ver a beleza do mundo” e é incapaz de fazer mal a um ser vivo, para se tornar uma intrépida aventureira, superando a sua programação ao salvar William de ser alvejado, começando a enxergar as possibilidades do livre arbítrio e abandonando seu perfil de donzela em apuros. Maeve, por sua vez, após descobrir que sua vida é (literalmente) uma farsa, elaborada por seres que ela descobre não serem superiores a ela mesma, se sente encorajada a forçar os seus limites no “mundo real”. Ao final as duas se complementam: Se Dolores é a voz da reflexão e do questionamento, Maeve é a voz da revolução, com todas as suas consequências.

O Homem de Preto: instintos extravasados
 de forma intensa e brutal


Deste conflito contínuo entre o despertar e as consequências da busca do livre-arbítrio, temos uma narrativa que durante toda a temporada nos faz acreditar ser linear e ao final nos surpreendemos com reviravoltas sobre eventos passados e formação de identidades. 

Maeve Millay (Thandie Newton) e Clementine Pennyfeather
(Angela Sarafyan): Mulheres-objeto com almas despertando...

E agora, reflitamos sobre a identidade do poder, encarnada com maestria pelo Dr. Robert Ford. Inicialmente nos deixamos levar por sua aparência bonachona de “vovozinho amoroso”. Mas, apesar de lembrar o velhinho sonhador John Hammond do filme Jurassic Park (1993), um velhinho sonhador, ele rapidamente revela a sua verdadeira face, mais parecida com o John Hammond do livro “Jurassic Park”, (como Westworld, também criação de Michael Crichton): um velho FdP de fala mansa e que nunca eleva a voz, mas que não hesita em remover, de forma rápida e definitiva, quem se coloque em seu caminho. A companhia Delos, sócia do parque, disputa uma queda de braço com o Dr. Ford, pois tem planos diferentes dele para o uso de parte da tecnologia gerada ali, que parece não ser a empregada nos androides. Seria para o “labirinto”

Robert Ford e John Hammond (Richard Attenborough):
 Os velhos e nefastos criadores de parques de diversões 
em obras de Michael Cricthon...

E ainda temos a questão do passado do doutor ligado ao seu finado sócio Arnold, co-criador do parque, que parece assombrá-lo do túmulo. Arnold deve ter sido o seu “Grilo Falante” apesar de Ford sempre comentar que ele não tinha muita fé na humanidade: seu sócio foi o criador do projeto de Pariah, o vilarejo mexicano onde reina um clima mais permissivo do que na cidade principal de Westworld. Crichton, ao escrever “Jurassic Park”, se espelhou no que criou para o filme de 1973. Curiosamente aqui temos esse retorno na figura do velho e nefasto criador no Dr. Ford, cuja complexidade deverá render muitas reviravoltas, uma vez que Ford e Arnold parecem ser duas facetas de um mesmo sistema, como os gêmeos da mitologia grega Cástor e Pólux, um deles enxergando sempre para o passado e outro sempre para o futuro, mas também vemos uma consciência do final do próprio ciclo, pois ao concluir a temporada percebemos o fechamento de uma era, um “adeus aos velhos deuses”. E neste caso temos a melhor interpretação de Anthony Hopkins como uma divindade. Ele está mais “Deus” do que quando vive Odin na franquia dos filmes do Thor da Marvel Studios. Inicialmente parecendo apenas um megalômano controlador, vai gradualmente indo do cruel ao manipulador, do filosófico ao visionário transcendente. Um Deus, com algumas pitadas de Hannibal Lecter. E, como todo Deus, tem uma noção de como as coisas começam e terminam...

Dolores e Maeve: Os dois lados da revolução...

Tentando evitar spoilers, só posso acrescentar que a série tem um elenco afiado com todos defendendo bem seus papéis. Até o sempre mal aproveitado Rodrigo Santoro (Hollywood ainda vai ver como pagou bobeira...) nos dá, com o seu bandoleiro Hector Escaton, a sua melhor interpretação de “coadjuvante de luxo lacônico”. O que não deixa de ser um ganho.

Hector Escaton (Rodrigo Santoro): O "coadjuvante de luxo"...

Ganchos para a próxima temporada não faltam, além de easter eggs, como ocorre no episódio 6: enquanto Bernard Lowie (na grande e contida interpretação de Jeffrey Wright) estuda no laboratório o comportamento anômalo dos anfitriões, vemos, por um reflexo desbotado, um androide com feições do ator Yul Bryner (o modelo antigo do principal anfitrião do filme de 1973) encostado numa parede, desativado. Temos até o luxo de uma cena pós-créditos no último episódio que se não é vital, é bem divertida.
Ao final temos o pensamento de que nós, enquanto espécie, perdemos algo ao tornar-nos a espécie hegemônica do planeta e caminhamos para criar uma forma de vida artificial por ansiar dominar outra espécie de nosso nível de inteligência. Mas, se a criarmos bem, ela poderá não aceitar o nosso jugo e acabar sucedendo-nos enquanto senhores do mundo, como o filho que sucede ao pai. O chamado "Complexo de Frankenstein", como bem definiu o escritor de ficção científica Isaac Asimov.
Neste caso, torçamos para que os filhos sejam melhores do que os pais.
"-O lance é levar para a manutenção, consertar, lavar 
e botar para rodar o programa de novo!"



 
*: A construção da consciência de mundo e do indivíduo é um tema recorrente do escritor Philip K. Dick, que constantemente lidava com mudanças de paradigma do que é real e do que é ilusão, muitas vezes quebrando o que se estabelecia como real para revelar aquilo nada mais era do que a ilusão do “real” (como vemos no já citado Blade Runner, filme baseado em seu romance). Este conceito foi posteriormente popularizado pelos irmãos Wachowski no filme Matrix (1999) em cuja franquia, se estabelece que o mundo em que vivemos é uma ilusão colocada diante de nós para não captarmos a realidade, muito mais dura e cruel do que podemos suportar.