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quarta-feira, 11 de março de 2020

Crítica - Séries: Westworld- 2ª Temporada




Livre-arbítrio, identidade e o Fantasma da Máquina

por Alexandre César

Nova temporada aposta no "dia seguinte" da anterior 

"Festa muito louca": William, o "Homem de Preto" 
(Ed Harris), no dia seguinte ao massacre...

 Ano de 2016. Após anos de gestação chegava ao ar a 1ª temporada de Westworld, usando como base o texto de Michael Crichton para um filme que ele também dirigiu nos anos 70 (Westworld, Onde Ninguém Tem Alma, 1973) E ela se torna um grande e improvável sucesso. Esperava-se na produção a inegável qualidade da HBO, mas surpreendeu a todos com uma narrativa complexa, misturando dois gêneros incomuns, e algumas das melhores reviravoltas e surpresas da TV atual . 

Dolores (Evan Rachel Wood) & Teddy (James Marsden):
 Uma rajada de balas, muitas balas

Agora, mudando a dinâmica de sua temporada de estréia, o que antes era um mundo cheio de possibilidades (pois, criar algo na encolha e entregar gratas surpresas a partir de baixas expectativas já não é surpreendente) ruma agora em uma direção caótica, ao mesmo tempo em que expande este universo. Se antes havia um cenário de Velho Oeste apresentado como uma Disneylândia para adultos, com sexo e violência, agora os “Piratas do Caribe” e os personagens de outros cenários tomam conta do pedaço e ninguém mais está rindo e se divertindo...

Ser ou não ser: Bernard (Jeffrey Wright) e um "drone".

O sucesso é algo redentor, mas pode rapidamente virar uma praga bíblica pelas cobranças e expectativas geradas e agora, com a grande quantidade de fãs que a série adquiriu, o buraco ficou mais embaixo. Os criadores deram respostas da melhor forma que a série pode oferecer, mas levantaram mais perguntas e instigaram o seu público a continuar acompanhando o seu desenrolar com uma produção impecável, num nível acima da grande maioria das outras séries. 

Arigatô: Maeve (Thandie Newton) a "gueixa-cafetina"...

A outrora indefesa Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood, bela e precisa na sua composição de personagem) se tornou uma impiedosa revolucionária máquina de matar. Ela é a líder da revolta dos Anfitriões, capaz de sacrificar tudo e todos que fiquem no seu caminho para alcançar seus objetivos. 

Ano 2003 - Operação Terra (FutureWorld, 1976): A continuação do Westworld original

 Como diz o ditado: “a mulher faz o homem. Dolores “faz” o seu amado Teddy Flood (James Marsden, muito mais do que um rostinho bonito). Eles se tornam, durante boa parte da temporada, em versões de Barbie e Ken no modo Exterminador do Futuro. Decidida a destruir os humanos e chegar ao Além do Vale, Dolores, de certa forma, trocou de posição com Maeve Millay (Thandie Newton, ótima ao mostrar o aprofundamento da personalidade da “cafetina”). 

James Delos (Peter Mullan): Como todo rico FDP 
anseia "viver para sempre". Boa sorte...

Maeve, por causa da busca por sua filha, torna-se mais sensível nesta temporada e capaz de demonstrar empatia. Ela e sua trupe , incluindo Hector Escaton (Rodrigo Santoro, que, mesmo tendo pouco tempo de tela, mostra como conseguiu superar as limitações impostas pela indústria por ser um “ator latino”) e Lee Sizemore (Simon Quaterman, divertido e triste quando necessário), protagonizam momentos memoráveis ao flertar com o estilo do diretor Akira Kurosawa para criar o Shogun World, um "faroeste nipônico" cujos personagens são suas versões espelhadas num mundo oriental. Muito legal, mas esta foi passagem abrupta, deixando apenas um gostinho de quero mais. Se a série tiver mesmo cinco temporadas, então devemos vislumbrar mais um ou dois mundos diferentes pelo menos.

Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins) e Bernard 
(Jeffrey Wright): O onipresente "Fantasma da Máquina"

Um ganho para a 2ª temporada de Westworld foi a possibilidade de explorar novos personagens - apesar de nem sempre isto ser uma uma boa ideia. Enquanto Charlotte Hale (Tessa Thompson) ganha a importância merecida na narrativa, atuando com elegância, Karl Strand (Gustaf Skarsgård), o chefe de segurança da Delos, é bidimensional, sendo trabalhado apenas o que o roteiro precisa. Erros e acertos.

Karl Strand (Gustaf Skarsgard) e Charlotte Halle (Tessa 
Thompson): O meramente funcional e a  personagem de fato...

O Homem de Preto (Ed Harris, soberbo em olhares e linguagem corporal), com sua paranoia e violência absurdas, mostra todo seu potencial, através de sua dor física e emocional, quando demonstra sua relação frustrada com a esposa Juliet Delos (a bela Sela Ward) e sua até então incapacidade de ser feliz, contrastando com seu senso de satisfação com a nova situação do parque - agora tudo se reduz a uma básica e primitiva luta pela sobrevivência. Tudo isso culmina no desenlace com sua própria filha, Grace (Katja Herberts), e seu questionamento da realidade. Em contrapartida, complementando a sua caminhada, continuamos a acompanhar o seu alter-ego no passado, o jovem William (Jimmi Simpson, cheio de nuances em seu personagem), que apresenta um trabalho equivalente, complementando as informações de quem ele é e porque se tornou assim. Temos aqui, bem apresentado, um vilão/anti-herói trágico, cujas nuances e diferenças entre estes dois lados do personagem estão completamente borradas.

William e Julet Delos (Sela Ward): A bela e frustrada esposa...

Um dos motes centrais desta temporada está na apresentação do surpreendente projeto pessoal de William quanto ao parque, que retoma a um tema recorrente da ficção científica: o prolongamento da vida através da transferência da essência do indivíduo para um corpo mais durável, seja mecânico ou geneticamente aprimorado (como na série Altered Carbon da Netflix), permitindo a indivíduos ricos e poderosos, como James Delos (Peter Mullan), vencer a morte e continuarem a acumular indefinidamente poder e riqueza, tornando-se quase deuses (quando dá certo...). Esta proposta nos remete a Futureworld (aqui no Brasil, passou nos cinemas com o título de Ano 2003 – Operação Terra ), filme de 1976, com Peter Fonda e Blyte Danner, dirigido por Richard T. Heffron. Esta é a continuação esquecida do Westworld original e nela temos Yul Brinner reprisando sua clássica versão do Homem de Preto.

Linhas narrativas: Lee Sizemore (Simon Quaterman),
 o roteirista das atrações do parque...

O arco da confusão mental e temporal de Bernard (Jeffrey Wright, nos dando o mais humano dos anfitriões), com sua perspectiva truncada, nos guia durante toda a temporada em uma nova forma de “brincar” com as linhas temporais. Mesmo que sua desorientação o torne um personagem indigesto, devemos a Bernard grande parte dos mistérios plantados no decorrer da trama, sendo a relação dele e de Maeve com o ”falecido” Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins, capaz de atrair toda a atenção para si – mesmo que em silêncio) é inegavelmente um dos pontos altos da 2ª temporada. Sua presença como uma “assombração” (na verdade um programa, um “fantasma da máquina”) na mente da dupla, ora incitando, ora tomando o controle, mostra o quanto o “velhinho” Ford tinha tudo planejado.
 
 Conflito de gerações: William e sua filha Grace (Katja 
Herberts) na sua história conturbada...

Um momento genial foi a apresentação de uma nova perspectiva do que é mostrado na série no episódio inteiramente dedicado à sabedoria de Akecheta (Zahn McClarnon), um dos membros da Nação Fantasma, brutal tribo indígena que anteriormente apenas servia como figuração, totalmente à margem da história principal. Aqui temos suas motivações e objetivos apresentados de maneira clara, conectando-se a todos os outros protagonistas num dos melhores episódios da temporada, pelo seu tom poético e até místico.

Akecheta (Zahn McClarnon) da "Nação Fantasma": De
 figurante de luxo a protagonista de sua própria história.

O quebra-cabeças temporal, que define o tabuleiro depois dos acontecimentos da primeira temporada, mostra novas direções além de trazer novidades às narrativas - como anfitriões drones tentando retomar o controle sobre o parque e a breve menção ao Raj World, que seria um mundo colonial inglês na índia - que prometem expandir ainda mais o universo. Percebemos que, diferente do que vemos mostrando que não se trata de alcançar um objetivo final - como foi no ano um - e sim mostrar que Westworld é apenas um único elemento visto até então de um complexo parque muito maior. 

Hector Escaton (Rodrigo Santoro): Latino, sim. Caricato, nunca!!!

A aposta na experimentação visual e temática inseriu o imprevisível na série, ora entregando algo completamente inédito, ora mudando as suas próprias regras do jogo a cada capítulo – valendo-se para isso da sua alta qualidade dos roteiros, do apuro visual e/ou da excelente trilha sonora de Ramin Djawadi, que apresenta algumas músicas conhecidas do público, seja usando temas da própria série, em arranjos instrumentais diversos dos originais, ou apelando a hits conhecidos, marcando os momentos de drama, humor, suspense e romance, mas, acima de tudo, sublinhando a ação externa e a introspecção de seus personagens.

Quem "programa" quem? Bernard...

O ritmo lento e cadenciado da série afasta muitos, mas premiará os que forem pacientes. Finda a busca pela “terra prometida”, a 2ª temporada conseguiu atingir a maioria das expectativas, numa conclusão com cara de ponto final. Fugindo da lógica da indústria, a HBO percebeu que o ideal é ter o seu próprio tempo, sem lançar temporadas apressadamente ano a ano para manter o público cativo, mas sim, se preocupar em ter uma produção, direção e roteiro impecáveis, com atores capazes e assuntos que dialogam com o “agora”.


William e Ford: O "jogo" nunca termina...apenas se 
espande para uma nova fase... e além.


Para futuro, Westworld pode apostar em todos os aspectos: do maior teor cinematográfico até a temática cada vez mais existencialista, pois a produção deu confiança para as nossas maiores expectativas. Perguntas ainda existem, mas, se você não quer tentar respondê-las, é que essa série simplesmente não é para você.


Todas as apostas estão abertas...

 

segunda-feira, 9 de março de 2020

Crítica - Séries: Ragnarok - 1ª Temporada



Smallville Nórdica

por Alexandre César

Modesta série teen investe no subtexto mitológico


Thor e Loki: Os irmãos Magne (David Stakson) e Lautits Seier (Jonas Strand Gravli)...

Retornando à sua cidade natal após 10 anos Turid Seier (Henriette Steenstrup) natural de Edda, na Noruega, perdeu o marido nova e criou seus dois filhos Magne e Laurits sozinha sendo uma mulher meio perdida. Magne Seier (David Stakson), o filho mais velho, é um rapaz louro, grande e forte que usa óculos desde os dois anos jovem e sofre de dislexia e Laurits (Jonas Strand Gravli) o irmão mais novo é magro, pálido e de cabelos negros, sendo conflitante com Magne embora leal.

O velho caolho (Bjorn Sundquist) o "Pai de Todos"...

Logo no dia do seu retorno à Edda Magne ajuda um velho caolho (Bjorn Sundquist) De cadeira de rodas e Wenche (Eli Anne Golestad) a caixa do mercado local diz que ele é uma pessoa boa e lhe passa a mão na testa, e rapidamente Magne ganha sentidos aguçados, não precisando mais dos óculos e começa a sentir as mudanças climáticas, além de adquirir força e resistência desmedida e ainda sendo capaz de arremessar martelos a loongas distâncias.


Confronto: Vidar Jutul (Gísli Örn Garðarsson) reconhece em Magne um inimigo antigo.


Turid, sua mãe, trabalha na contabilidade de Vidar Jutul (Gísli Örn Garðarsson) chefe e dono das Indústrias Jutul, principal empregadora da cidade, acusado por Isolde (Ilva Theron Bjorkas) ativista ecológica (a mãe morreu de câncer) que se torna amiga de Magne que tenta provar a culpa das Indústrias Jutul pela poluição do fiordes. A sua morte trágica desencadeia no rapaz a busca por justiça entrando em rumo de colisão com o empresário, que é mais do que um mero mortal...

Ran Jutul (Synnøve Macody Lund) a bela matriarca da última família de Gigantes...

Criado pelo showrunner Adam Price e com direção de Mogens Hagedorn e Jannik Johansen, Ragnarok é a nova aposta da Netflix, sendo uma série teen norueguesa de baixo orçamento e pouco CGI, que narra o que seria o conflito final entre os deuses nórdicos (encarnados nos tempos atuais) com os gigantes, e lembra em seu desdobramentos Smallville, a série que mostrava a adolescência do futuro Homem de Aço, trocando o Kansas pelas belíssimas locações da cidade de Odda com seus fiordes, montanhas e florestas imponentes que e boa fotografia de Philippe Kress (Riviera) sabe valorizar plenamente.

Amor impossível: Magne gosta de Gry (Elma Bones) que gosta de Fjor...

A caracterização dos personagens é clara, percebendo-se logo na primeira sequência que Magne é Thor, Laurits é Loki, velho caolho é Odin, a caixa do mercado local, uma vidente norn. Trynn, o cão dos Jutul, na verdade é o lobo Fenrir. e por aí vai, sendo mencionado por Erik (Odd-Magnus-Williansom) pai de Isolde e prof. de História do colégio que Edda foi a última cidade da Noruega a abraçar o cristianismo, abdicando do culto aos velhos deuses, o que teria sido o primeiro Ragnarok (o fim do mundo a mitologia nórdica), ocupando Isolde em sua busca de justiça e defesa do meio ambiente, uma posição equivalente à do honrado Balder, cuja morte na mitologia desencadeou o Ragnarok. Visar e sua esposa Ran Jutul (Synnøve Macody Lund) que é a disciplinadora e forte diretora da escola, sua filha Saxa (Theresa Frostad Eggesbø), a "popular" da escola e Fjor (Herman Tømmeraas) o filho playboy, que olha os mortais como nada, são a última família de Gigantes, inimigos figadais dos Deuses que são os responsáveis pela devastação ambiental, o que leva a crer que devem existir mais Gigantes no mundo...

Laurits logo se enturma com a turma de Saxa Jutul (Theresa Frostad Eggesbø) a mais popular da escola...

O protagonista, por ser disléxico e tímido funciona melhor quando acompanhado, pois a sua natureza contida não permite grandes vôos dramáticos, ficando o contraste na reação da quem está com ele na ocasião como a ironia cínica de Laurits (que é gay, inclusive de travestindo numa cena), o temor materno de Turid, ou as reações de Gry (Elma Bones) colega de Magne e interesse amoroso dele, que tem problemas com o pai inválido por causa do trabalho nas Indústrias Jutul que lhe negam indenização. Sua doçura abala o coração de Fjor, fazendo-o questionar suas lealdades, tendo ele um ótimo diálogo com Vidar, que pega um machado e quer matar Magne porquê “- Ele é um deus, um inimigo! Antes deles os humanos nos veneravam!”ao que o filho replica: “É, mas agora você dirige um volvo e passa a noite jogado no sofá vendo filmes americanos comendo doces!” lembrando alguns dos momentos de questionamento entre Lex e Lionel Luthor de Smallville.

Isolde (IlvaTheron Bjorkas) a ativista cuja morte desencadeia a série de eventos dramáticos...

Os valores de produção trabalham bem com o pequeno orçamento. Os figurinos de Tanja Eleonora Spang (Friheden) cria o contraste entre o mundo comum e ordinário dos mortais, mostrando a elegância dos Vidar (em especial Ran e Saxa) e os trajes convencionais, comprados em lojas, de Turid, Magne, Erik, Gry, indo na mesma direção o desenho de produção de Mette Rio (Happy Ending) nas residências simples dos Seier de Gry, Isolde, ou as dependências da escola, a lanchonete e o hospital da cidade, e de forma sutil o mundo mágico na mansão Jotunhein(lar dos gigantes do gelo na mitologia nórdica) dos Vidar com escadas sem corrimão, armas antigas decorando as paredes, móveis de madeira entalhada e uma mesa feita de um tronco sólido onde há uma cena definidora quando Ran tem uma queda de braço com Magne (que ela embebedou com hidromel) e a edição de Elin Pröjts (Friheden) Lars Wissing (Caçadora de Gigantes) e Mogens Hagedorn (Anna Pihl) dão o tom da revelação quando ele vê a face real da diretora, e depois, se vê no espelho como um guerreiro nórdico, sendo o clima sublinhado pela trilha musical de Halfdan E (Um Homem Um Tanto Gentil) colabora com o equilíbrio entre essas realidades, indo da música clássica de Wagner ao techno moderno do M83.

"-Esse Mjolnir pode ser comprado no Wall-Mart, mas servirá!!!"

 A primeira temporada se compõe de seis episódios de 45 minutos que apresentam o pano de fundo, devendo desenvolver mais os personagens e suas motivações na temporada seguinte, o que decepcionará alguns espectadores casuais, mais afeitos a uma ação direta e da pirotecnia explícita, mas que apresenta um potencial futuro. Esperemos que uma eventual segunda temporada (e com um maior orçamento para os efeitos visuais) permitam à série dar maiores vôos imaginativos nesta saga.


"-Chega de adereços!!! Eu quero um CGI  responsa!!!"

sexta-feira, 6 de março de 2020

Crítica - Séries: Altered Carbon - 2ª Temporada


Clone Requentado

por Alexandre César

Muda o cenário e o intérprete mas algo se perdeu... 




Takeshi Kovacs muda de corpo (literalmente) como mudamos de celular, de acordo com a necessidade da missão que irá realizar no mundo para onde vai, procurando sempre ficar fora do radar do Protetorado (autoritário governo plutocrata que governa os sistemas conhecidos). 30 anos depois de deixar para trás a Terra e as tramas “detetivescas” de quando usava a “capa” de Elias Ryker (Joel Kinnaman na 1ª temporada) ele volta para Harlan o seu mundo natal, e aceita um contrato de proteção de um figurão local, que lhe oferece uma “capa” de último tipo (Anthony Mackie de Vingadores: Ultimato) e levando a tiracolo o seu inseparável sidekick de Inteligência Artificial Paul (Chris Conner de A Colheita).


De cara nova: Takeshi Kovacs (Anthony Mackie) e seu parceiro Paul (Chris Conner).



Com um novo ator principal, a segunda temporada de Altered Carbon também traz uma nova proposta para a sua narrativa de ficção científica, trocando o policial noir tipo Blade Runner (1982) de Ridley Scott e entrando uma aventura que no seu conjunto lembra Total Recall (1990) de Paul Verhoeven, seguindo a história de Kovacs, que continua atrás de seu amor Quellcrest Falconer (Renée Elise Goldsberry de Irmãs) a desaparecida guerrilheira de seus tempos de Emissário (guerreiros tipo Jedi) com o seu antigo comandante do Protetorado Carrera/ Jaegger (Torben Liebrecht e Daniel Bernhardt nos flashbacks) em seu encalço. Outra dinâmica, mas algo parece ter se perdido...


"Cidadã de Bem": A governadora Danica Harlan (Lena Loren) apesar da "aura" governa despóticamente...


Embora uma Segunda Temporada de nunca tenha feito parte dos planos da Laeta Kalogridis ou da Netflix, a rede de streaming seguiu em frente e renovou a série de qualquer maneira dado o sucesso da Primeira Temporada e sentindo-se nesta atual, uma pegada de John Wick mas, é perceptível que vários aspectos dessa segunda temporada são apenas cópias da primeira, alguns um pouco melhorados mas na maioria deles o senso de dejá vu é gritante. Para dar uma nova dinâmica tivemos a adição de Trepp (Simone Missick de Luke Cage) uma caçadora de recompensas lésbica com implantes cibernéticos e casada com Myka (Sharon Taylor de Riverdale) que faz parceria com Kovacs e procurou-se dar mais espaço para outros personagens como Poe, que está com problemas no seu software, precisando reiniciar, coisa que ele protela por temer perder as lembranças de Lizzie Elliot (Hayley Law de Riverdale), encontrando apoio em Dig 301 (Dina Shihabi de Jack Ryan), um programa de rastreio arqueológico sem uso por causa do cancelamento das escavações, o apoio para se recuperar, mas embora o seu arco seja interessante, percebe-se que os roteiristas não sabiam o que fazer com o personagem.

Inclusão: O casal Myka (Sharon Taylor) & Trepp (Simone Missick).

O mundo de Harlan é a fonte principal do minério essencial para a fabricação dos “cartuchos”que gravam a consciência do indivíduo, permitindo a troca de uma “capa” (corpo) a outra, seja natural ou clonada, e a mineração desta comoditie é controlada com mão de ferro pela governadora Danica Harlan (Lela Loren de Power) que vive em queda de braço com o Protetorado e os interesses da elite local, entre eles, Tanaseda Hideki (James Saito de Punho de Ferro) o líder do clã da Yakuzaque sabe dos “podres”do fundador do planeta Konrad Harlan (Neal McDonough de DC´s Legends of Tomorow) que ajuda Kovacks, na redição do clichê de que todo chefão da Yakuza é no fundo, a despeito de suas atividades criminosas, um homem honrado e sábio, e não um gangster bem sucedido (que eles se vejam assim é uma coisa, mas que nós compremos essa imagem é algo bem questionável)...

Objeto de desejo: A uber guerreira Quellcrest Falconer (Renée Elise Goldsberry).

Temos num momento em que Takeshi é torturado pelo Protetorado a volta de personagens familiares como a sua irmã Reileen Kawahara (Dichen Lachman de Marvel´s Agents of S.H.I.E.L.D.), a detetive Kristin Ortega (Martha Higareda de Into the Dark) e Vernon Elliot (Ato Essandoh de Diamante de Sangue) como “capas”clonadas que tentam matá-lo e mais adiante um clone do Takeshi Kovacs original (Will Yun Lee de Rampage: Destruição Total) usado por Jaeger para confundir Kovacs e a desorientada Quellcrist, mas a dedução do desfecho é fácil se você já viu outros filmes e séries que lidam com o tema da clonagem e duplicação de personalidades...

Paul encontra apoio na Inteligência Artificial Dig 301 (Dina Shihabi).

A principal quebra em relação à temporada anterior, além da redução da nudez (mais comedida) e da violência gráfica, é a opção por mais sequências de ação, e menos momentos de reflexão sobre o estado do ser humano em meio à esta sociedade capaz de viver indefinidamente, e o impacto na pirâmide social, gerando um aumento de escala na narrativa da série, mas não necessariamente aprofundando ou discutido com entusiasmo os temas sociais e filosóficos, o que enfraquece um pouco a consistência deste universo, em comparação com a primeira temporada.


"Lembra de mim???" Carrera (Torben Liebrecht) a atual "capa" de
Jaegger, antigo comandante de Kovacks nos tempos em que servia no Protetorado...

A fotografia de Corey Robson (Arrow), Bernard Couture (Lemony Snicket: Desventuras em Série) e P.J.Dillon (Game of Thrones) auxiliada pela edição de Geoff Ashenhurst (Defendor), Erin Deck (Into the Badlands), Stephen Philipson (Hannibal) e Jay Prychidny (Orphan Black) imprimem um ritmo perfeito para as cenas de ação, facilitando o maratonar e manter a atenção do espectador casual, auxiliadoa pela música de Jeff Russo (Legion) e Jordan Gagne (Star Trek: Discovery) mas ao mesmo tempo perdeu-se um pouco da ambição temática da série, que servia como um dos maiores apelos para fãs de ficção científica.


Paul embarca numa jornada pelo Cyberespaço na esperança de fazer um upgrade...

A ambientação é boa mas não tão impactante, sendo o desenho de produção de Carey Meyer (Into the Badlands) e a direção de arte de Don Macaulay (Elysium), David Clarke (Perdidos no Espaço) e Lisa Pouliot (Escola de Magia), auxiliados pelos efeitos visuais da Pixel Light Effects e da Spin VFX corretos, mas nada tão arrebatador ou marcantes quanto os visuais das ambientações cyberpunks da primeira temporada, indo os figurinos de Cynthia Ann Summers (Lemony Snicket: Desventuras em Série) na mesma direção.

Eu sou a sua cara: Kovacks e uma versão clonada de sua "capa" e consciência passada (Will Yun Lee) de quando era um fiel operativo do Protetorado...

Ao final, a temporada foi morna, sendo muito mais do mesmo, e caso aconteça uma terceira temporada decidindo ir mais à fundo nas tramas revolucionárias recorrentes deste universo, Falconer, por ter recebido mais destaque, seria uma personagem potencialmente mais interessante para se aprofundar (mais do que o próprio Kovacs) e como há muitos outros planetas nos mundos estabelecidos para a série a serem explorados, o que abre espaço para diferentes caracterizações deste futuro distópico(se essa for a direção que a showrunnerLaeta Kalogridis escolher ir) a Netflix certamente deve introduzir spin-offs que se passem paralelamente à série, havendo a notícia de um anime, inclusive, que já estaria a caminho, o que seria uma boa saída pois o próximo livro de Richard K. Morgan apresenta uma escala muito grande para ser adaptado do modo como foi o primeiro romance de Takeshi Kovacs.


No mundo de Harlan se comemora o feriado nacional com uma ampla queima de fogos e de dissidentes...