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domingo, 27 de setembro de 2020

Crítica- Séries: Cobra Kai - 1ª e 2ª Temporada

 
Sobre legado e feridas não cicatrizadas

 por Alexandre César 


Drama oitentista envolvente e cativante


A batalha continua...  

 

Johnny Lawrence (William Zabcka de A Ressaca) viveu os últimos trinta e quatro anos à sombra de sua derrota no torneio de karatê para Daniel Larusso (Ralph Machio de Vidas sem Rumo) e que inclusive lhe roubou a namorada Ali (Elisabeth Shue de The Boys) tendo desde então vivido de fracasso em fracasso na sua vida pessoal e profissional (?) vendo à distância seu antigo desafeto seguir adiante, crescer e prosperar, enquanto ele permanecia engessado nos anos 80. Uma escalada de incidentes casuais vão levando-o à enfrentar seus fantasmas, entre eles Sid Weinberg (Edward Asner de Mary Tyler Moore) seu padrasto abusivo, assumir seus erros e reabrir o dojo de seu antigo mestre, mas dando o seu toque pessoal, galgando neste processo, uma jornada de redenção pessoal cheia de tropeços, mas que resgatará a sua dignidade perdida.

 
Figura paterna substituta: Johnny Lawrence (William Zabcka) 
acolhe Miguel (Xolo Maridueña) e o treina para se defender...  
 
 
Em 1984 Karatê Kid:A Hora da Verdade de John G. Avilsen (Rock, Um Lutador) imortalizou no imaginário popular a dupla Daniel-Sam & Mestre Myagi (Pat Morita) e tornou icônico o modus operandi de myagi ao ensinar o jovem carente a atravás da arte marcial a trazer equilíbrio à sua vida e, neste processo derrubar seus oponentes de forma rápida eficiente e elegante usando o golpe da garça entre outros, mostrando que só tolos valentões procuram a luta pela luta por fama e vaidade, enquanto um real campeão só procura “lutar o bom combate”. O sucesso do filme abriu caminho para outras continuações, em 1986 e 1989 que rapidamente caíram no lugar comum de repetir o esquema Daniel Larusso-se-desorienta-e-se-dá-mal-sendo-resgatado-por-Myagi-que-o-treina-e-ele-dá-a-volta-por-cima sempre dando algum acréscimo à metodologia do mestre japonês para não dizer que não tem algo diferente. Com o esgotamento da fórmula veio um desenho meia-boca para a TV em 1989, uma tentativa de apostar na diversidade (Karatê Kid 4: A Nova Aventura de 1994) com Miyagi treinando uma nova discípula (Hilary Swank) e, até um reboot com Jackie Chan e Jaden Smith em 2010 (que pela lógica deveria ser Kung Fu Kid) mas parecia que definitivamente o clássico juvenil oitentista ficaria no passado... ou não???
 

Daniel Larusso (Ralph Machio) cresceu e prosperou, junto à 

sua esposa Amanda (Courtney Henggeler), o seu porto seguro...


Chegando com pouco alarde em 2018, originalmente produzido ela Sony Pictures Television e veiculado no YouTube e agora assumido pela Netflix (que disponibilizou as duas temporadas já preparando uma terceira) e, surpreendendo à tudo e a todos, Cobra Kai revisita a mitologia do filme de 1984 de forma espetacular e empolgante, trazendo Daniel Larusso de volta à baila, agora cinquentão e próspero pai de família, com Amanda (Courtney Henggeler de The Big Bang Theory) uma esposa maravilhosa e seus filhos Samantha (Mary Mouser de Room 104) uma adolescente meiga e o caçula Anthony (Griffin Santopietro de Lá Vêm os Pais) viciado em videogames e ainda revemos a sua mãe Lucille LaRusso (Randee Heller de A Sogra) que alterna discussões com a nora e juras de amor incondicionais à ela. Comercial de margarina... mas aqui, a grande virada é vermos Daniel ter a sua posição de protagonista ser superada pelo seu antigo oponente, o verdadeiro foco da série (numa performance estupenda de seu intérprete que aqui agarra o papel da sua vida com unhas e dentes) nos levando a torcer por Johnny Lawrence, pois todos nós gostamos de uma história de redenção e aqui, o ex-garoto valentão e analógico, na melhor tradição de Rocky Balboa vai num crescendo de retomada do controle de sua vida, e nos levando com ele nesse processo, deixando Daniel Larusso com o seu dojo zen no caminho...
 
 

Lawrence, entre Hawk (Jacob Bertrand) e o neurótico Demetri (Gianni Decenzo)... 

 

Hawk apesar da grande transformação, reinventa-se mas cai no abismo do radicalismo...


 
Invertendo os papéis, Lawrence acaba sendo o mentor e figura paterna substituta de Migguel Diaz (Xolo Maridueña de Parenthood: Uma História de Família) garoto equatoriano, sofredor de bullying por parte de valentões do colégio de classe mais abastada (e crush de Samantha LaRusso) ensinando-lhe karatê apesar dos temores de sua mãe Carmen (Vanessa Rubio de O Mundo Sombrio de Sabrina), que não quer o filho metido em brigas, opinião bem diferente da sua avó Rosa Diaz (Rose Bianco de Power). Assim, neste processo, Lawrence vai tornando uma trupe de nerds marginalizados na nova geração do Cobra Kai (apesar de seus métodos “inusitados” de treinamento).
 

Solidão: Daniel sente a falta de seu falecido mestre...


Do heterogêneo grupo do Cobra Kai se destacam Aisha (a iniciante Nicole Brown), a garota negra e gordinha que se revela uma oponente e tanto, Hawk (Jacob Bertrand de Jogador Nº1) o nerd magrelo de lábio leporino que se transfigura num “quebrador”, que infelizmente acaba virando um valentão, indo contra seu antigo amigo, o neurótico Demetri (Gianni Decenzo de Fartcopter) que não para de falar um segundo (ele acaba saindo para ir treinar com LaRusso, acentuando a rivalidade entre os dois), o gordinho Raymond, o “Stinger”(Paul Walter Hauser de Eu,Tonya) que embora não seja de fato um lutador desenvolve grande malandragem e senso de oportunismo e a bela e perigosa Tory (Peyton List de Acampados) que começa a namorar Miguel, mas cujo ciúme a coloca em rota de colisão com Samantha, culminando numa briga entre as equipes digna das lutas de saloon dos filmes de farwest em versão anabolizada. A ação é bem acrobática, o que levou muitos a observarem que o que é mostrado é coreografia, e não karatê, mas tudo bem pois é empolgante, estando de parabéns a edição de Zack Arnold (Burn Notice), Nicholas Monsour (Nós), Jeff Seibenick (O Mandaloriano), Spencer Houck (Cost of Living), Jordan Goldman (Homeland), Bartholomew Burcham (The Gifted) e Ivan Victor (Atlanta) que mantém o pique narrativo tanto nas cenas de ação quanto nos momentos mais serenos.
 
Miguel e amigos sofrem bullying pelos valentões da escola...

 
Miguel, ao derrotar os valentões num vídeo, viraliza na internet tornando-se um grande atrativo para a comunidade jovem, e aqui a série se mostra uma alegoria interessante com o momento político atual, de retomada da extrema direita em todo o mundo, pois LaRusso ao prosperar, se tornou um burguês, exemplo da ideologia meritocrática, cercado daqueles que o desprezavam em seus tempos de juventude, enquanto Lawrence com seu jeito bronco e apesar de politicamente incorreto, tornou-se um elemento de maior identificação dos jovens losers pois como aconteceu no mundo real, as esquerdas e as forças progressistas ao se estabilizarem, tornaram-se reféns das boas maneiras e do status quo, perdendo a credibilidade daqueles revoltados com a ordem vigente, e nisto o Cobra Kai cresce ao acolhê-los e empoderá-los com a ação e a vantagem numérica como método dando-lhes a noção de fazer parte de algo maior que eles próprios (o fascínio do fascismo é sempre pela grandiosidade do espetáculo....) e aí Lawrence cai na armadilha de dar uma segunda chance a John Kreese (Martin Kove de Rambo II: A Missão) seu antigo e abusivo sensei, que rapidamente vai infiltrando sua ideologia beligerante e militarista plena da ideia de que “a guerra cria homens melhores, mais fortes, mais duros!”coisa bastante familiar a nós atualmente...
 
 

Robby Keene (Tanner Buchanan) disputa a atenção de Samantha LaRusso (Mary Mouser)


Como nada é tão difícil que não possa piorar, Lawrence ainda tem sérios problemas de relacionamento com Robby Keene (Tanner Buchanan de Desginated Survivor) seu filho revoltado, fruto de seu relacionamento com Shannon (Diora Baird de Busca Incansável) mãe periguete e alcóolatra, que para alfinetar o pai acaba indo trabalhar (e treinar karatê) com Daniel LaRusso, disputando com Miguel o coração de Samantha.
 

Vitória: No final da primeira temporada o Cobra Kai ganha o campeonato local...


Apesar das suas grandes diferenças, Daniel LaRusso e Jonhhy Lawrence até conseguem chegar a um acordo de convívio, mas as circunstâncias, e os jovens (verdadeiros barris de pólvora) sempre acabam colocando os dois em rumo de colisão, mas nada comparado às duas equipes que na fervura dos hormônios só espera um riscar de fósforo para explodir.
 

Fatalite: Lawrence cai na roubada de dar uma chance  à 

John Kreese (Martin Kove) o seu abusivo sensei...


Visualmente a nostalgia impera na série, indo da música de Leo Birenberg (Pretty People) e Zach Robinson (Homem-Formiga) recheada de hits dos anos 80 e 90, que trabalha junto com os enquadramentos da fotografia de Cameron Duncan (Preacher), Paul Varrier (The Walking Dead) e D. Gregor Hagey (The Dark Stranger) parecendo um clip da época deliciosamente cafona num bom número de vezes, da mesma forma que o desenho de produção de Ryan Berg (Die Hart) e Moore Brian (A Barraca do Beijo 2) a direção de arte de Eric Berg (Better Things) e a decoração de sets de Liz Chatov resgata o Dojo Myiagicom as suas cercas bonsais, os troféus de competições de Daniel LaRusso e a coleção de carros do antigo mestre, em contraste com as instalações espartanas do Cobra Kai além de mostrar o contraste social na casa dos LaRusso com a casinha caindo asos pedaços de Johnny Lawrence, refletindo o seu estado quebrado tanto psicológico quanto financeiro e emocional. Já os figurinos de Frank Helmer (A Rainha do Sul) deixa claro a diferença entre os abastados, elegantes e bem sucedidos LaRusso e clientela e os ferrado do Cobra Kai, bem classe trabalhadora ou remediada. Karl Marx em videoclip...
 

Daniel reabre o seu Dojo Myiagi e passa a treinar Robby...


Ao final Cobra Kai surpreende por ser um novelão, mas sabendo ser um ótimo novelão, com um ótimo cliffhanger no encerramento de sua 2ªtemporada (digno do final de O Império Contra-Ataca, que termina com tudo dando errado) sendo Lawrence expulso do Cobra Kai por Kreese, que fêz um novo acordo com Armand Zakarian (Ken Davitian de Borat) o dono do shopping onde o Dojo se encontra, e assim vemos que o fascismo usa aqueles que inicialmente começam o movimento por um autêntico sentimento de mudança, para implantar o seu modus operandi de confrontação cuspindo fora aqueles que não lhe são mais úteis...
 
 

Paixão louca: Tory (Peyton List) passa a namorar Miguel de forma passional...

Confronto: A ciumenta Tory antagoniza Samantha por causa de Miguel...


Com a próxima temporada já confirmada, só podemos esperar pelo próximo movimento de Johnny Lawrence, o “herói quebrado”, que provavelmente resgatará a escalada de renascimento que outrora foi de Daniel-san e possivelmente no processo consertará a si mesmo e a seu antigo oponente, que na verdade, nunca foi seu inimigo de fato.
 

Trégua: Tanto Daniel LaRusso quanto Johnny Lawrence

 são capazes de entrar em acordo...

...mas os seus discípulos sempre entram em atrito...

 
A batalha ainda não está perdida...
 

"-Temos que parar de nos encontrar assim!!!" 


 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Crítica – Filmes: A Dama e o Vagabundo



A Arte de Saber ser Fofo

por Alexandre César


Chega o melhor remake de uma animação da Disney

 

E surge, sem alarde, a melhor adaptação de uma animação da Disney para o live-action...

 

Em 1955 Walt Disney nos presenteou com a fábula romântica de Lady, uma cocker spaniel de família que encontra em Vagabundo, um cão de rua de raça não muito definida, a sua outra metade da laranja e na melhor tradição de Lassie e Rin-Tin-Tin deu o protagonismo tão merecido que o melhor amigo do homem merece, apesar da tão pouca lealdade que este costuma receber em retribuição. Na época o desenho dirigido por Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske de forma sutil refletiu choque de classes sociais, jogou lenha na fogueira da rivalidade cães e gatos, nos infames Si e Ão pois na época existia o "perigo amarelo" (ou "vermelho") e em oposição ao simpático Mickey, tornou um rato o flagelo da humanidade (que deve ter tirado o sono de muitas gestantes e mães de primeira viagem na época)e ainda no final nos brindou com o surgimento do simpático Banzé, que brilharia nas histórias em quadrinhos. 

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Crítica – Filmes: Artemis Fowl: O Mundo Secreto

 


Teoricamente tudo funcionaria, mas...

por Alexandre César


Branagh e Disney erram feio ao adaptar a série

 

"O Filme": 125 milhões de dólares direto para o streaming...


Desde que um certo bruxinho pôs os pés numa escola de magia na Inglaterra, ganhando uma legião de fãs e, o mundo, graças a sua mais do que bem sucedida transição para a tela grande, que os estúdios estão mais do que avidamente caçando séries literárias juvenis que tenham potencial para tornarem-se rentáveis franquias, e assim tornarem-se possuidores do “Novo Harry Potter”. Não é necessário dizer na grande maioria das vezes eles deram com os burros n´água por optarem por “caminhos fáceis” que frequentemente descaracterizavam as obras que tinham em mãos criando um “mais-do-mesmo” que não agradava aos fãs do original e sem um diferencial que atraia o espectador ocasional de cinema. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Crítica - Séries: Perry Mason - 1ª Temporada



Noir Ensolarado e Melancólico  
 
por Alexandre César




Fiel ao espírito mas não à representação

Raymond Burr na encarnação consagrada
do personagem entre 1957 a 1966...

    Surgido nas páginas dos quase 80 livros de Erle Stanley Gardner (1889 - 1970) sendo muitos deles publicados postumamente, o advogado criminal Perry Mason (lançado no livro O Caso das Garras de Veludo de 1933) caracteriza-se por ser sempre dedicado a seus clientes (ele só aceita defender indivíduos que ele saiba que são realmente inocentes) independente de suas origens e classe social, sabe-se pouco sobre a sua origem, família, idade e aparência, pois o autor deliberadamente sempre descreveu muito mais o espírito e atitude do personagem do que o seu aspecto exterior, dando-lhe um aspecto mítico, que facilita por uma lado a sua adaptação (mas que nunca explorou a sua personalidade verdadeiramente) tendo sido imortalizado na série veiculada entre 1957 e 1966 com Raymond Burr pela rede CBS, que foi a precursora do gênero “procedural”(aquele cuja narrativa de cada episódio se foca num caso que é investigado a cada semana, não tendo nenhuma conexão entre demais) além de aparecer em programas de rádio, filmes para o cinema e TV e até quadrinhos e jogos, sem contar de ter se tornado uma referência nos meios jurídicos*1.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Crítica - Séries: 3% – 3ª Temporada

 

 

Encontrando o próprio mérito...

 

por Alexandre César


Apesar de tropeços, série cresce e se firma

 

Ausência: É revelado que Fernando sacrificou-se 
defendendo a "Concha"...
 
 
- Eles dizem que os 97% não prestam mas eu digo que não, e vamos provar para eles o quanto estão errados!”
 
Glória (Cynthia Senek) e Michelle (Bianca Comparato) 
administram a "Concha" e, o legado de Fernando 
até as circunstâncias colocarem-nas em rumo de colisão...
 
 
Com esta frase de Michele Santana (Bianca Comparato de Somos Tão Jovens) define o seu projeto de comunidade logo no início da 3ª temporada de 3%, a produção sci-fi nacional que que tornou-se a primeira aposta da Netflix e dividiu opiniões no país, mas fez um grande sucesso fora, mostrando que a alta expectativa do público nacional pode ter atrapalhado mas, superando os desafios e, principalmente os preconceitos típicos do próprio brasileiro, que costuma ser demasiado crítico a produções que fujam ao lugar-comum do que seria uma “produção nacional”, falada em português (o idioma que boa parte do público prefere trocar pela dublagem em inglês, alegando muitos, que deixa a história “mais natural de seguir...” ).
 
Irmãos: Rafael (Rodolfo Valente, deitado) e seu maninho Artur 
(Léo Belmonte) tem bons momentos de união e conflito...
 
Joana (Vaneza Oliveira) e Natália (Amanda Magalhães) se tornam
os últimos membros da "Causa" e procuram formas de seguir 
com o movimento...
 
 
 De qualquer forma, o seriado criado por Pedro Aguilera (Onisciente) evoluiu bastante no segundo ano, aumentando o número de locações e complexidade da história, e isso permanece na terceira temporada, que é uma releitura direta da primeira, levantando os mesmos assuntos discutidos sob uma mesma filosofia e ambiente, lembrando o teor chocante da 1ª Temporada, e realçando questões marcantes e sequências inspiradas.
 
O CGI das panorâmicas do "Continente" continuam com um 
"quê" de vídeogame, agora parte da assinatura visual da série...
 
 
Michele realizou o sonho de Samira, uma das fundadoras (varrida para debaixo do tapete da narrativa oficial...) do Maralto e fez a Concha, uma alternativa ao próprio Maralto e ao Continente. Neste local, há um trabalho coletivo para fazer algo bom para todos, numa utopia que reflete bastante a construção ideológica inicial adotada pelo Maralto.  
 
A Comandante Marcela (Laila Garin) faz uma "oferta irrecusável" 
à Michelle, mas ela a rejeita...
 
Michelle, que tanto odiava o "Processo", acaba sendo 
obrigada à criar uma seleção similar à do "Maralto"...
 
 Como mostrado na temporada anterior, os fundadores queriam que o local tivesse um nível impossível de perfeição, após todos os problemas do Continente. Mas, para a narrativa se aprofundar, o sonho da Concha entra logo no começo em colapso, não por um acontecimento mirabolante, mas por uma tempestade de areia aleatória surgida do nada (o que leva a pensar como raios, ergueram uma super construção no meio do deserto mas não tinham um plano de defesa contra tempestades de areia e só a perceberem quando ela já havia chegado, apesar de terem um sistema de monitoramento 24 horas,...) fazendo com que Michele tome uma decisão extrema: é necessário selecionar quem ficará ou não no local, reduzindo o contingente populacional a... 10%. Familiar, não?
 
Descobrimos que o "Casal Fundador" Laís 
(Fernanda Vasconcellos) e Elano (Silvio Guindane) tiveram 
de abdicar de sua filha Tânia para o "processo"...
 
Dividida sobre as suas lealdades Elisa (Thais Lago) ajuda Rafael 
(que está escondido) que convence o irmão Artur a 
lhe dar mais uma chance...
 
Assim, a terceira temporada de forma muito inteligente espelha a primeira, brincando com a nossa percepção sobre “certo” e “errado”, repetindo, na Concha, o tão demonizado processo de seleção feito pelo Maralto, ainda que com outros contornos, e nisso fica indefinido para qual lado torcer, se para os eliminados do processo ou para os que ficam na Concha, sendo as provas desenvolvidas por Michele criativas e instigantes, não tendo aquele tom de eliminação de “Reality Show” que as provas do processo do Maralto tem, até porque como a própria Michele repete várias vezes: “nenhuma seleção é justa”, mas infelizmente, dessa vez, a protagonista não cresce na temporada tão bem quanto os outros personagens, perdendo a chance de de entregar grandes cenas de introspecção e reflexão, fruto dos muitos altos e baixos decorrentes de ver o sonho da Concha não sair como o esperado, obrigando-a à criar um “Processo” contra sua vontade; e nisso vendo como as pessoas que antes a amavam começam a odiá-la rapidamente, fruto do quanto ela fica solitária nestes momentos (assim como aconteceu com o Casal Fundador, apresentando o que há por trás de tais decisões) e como, muitas vezes, o autor da prova também colhe frutos amargos com seus resultados.
 

Marcela, e André (Bruno Fagundes) o irmão ardiloso de Michele, 
no final "Criaram uma 'dificuldade' para venderem uma 'facilidade'" no melhor estilo brasileiro...
 
 
Há na trama um claro salto de tempo depois que a Concha é formada, unindo personagens de diferentes núcleos, parecendo inicialmente confuso, mas todas as tramas da história vão ganhando espaço em flashbacks muito bem encaixados para contar pontos da história, como quando o conselho do Maralto institui a esterilização de sua população, pois se a sua população se reproduzisse, junto com aporte anual de finalistas do Continente, logo os recursos de produção de alimentos, habitação, etc... seriam comprometidos); ou, quando descobrimos quem fundou A Causa, o movimento de resistência que combate O Processo, ou ainda quando se detalha mais o passado da Comandante Marcela (a ótima Laila Garin de Chacrinha: O Velho Guerreiro) e sua relação com Leonardo, seu pai e membro do Conselho do Maralto (o cantor Ney Matogrosso, numa boa e seca atuação) e o peso de carregar o nome Alvares, deixando-a mais tridimensional do que uma mera  “vilã à Game of Thrones. Ainda temos ao final um movimento arriscado de André, o irmão ardiloso de Michelle (Bruno Fagundes de Sense 8) contra a autoridade de Nair (Zézé Motta de Xica da Silva) e o conselho. Todos esses possíveis desdobramentos estavam presentes desde o começo da série, ficando agora melhor definidos em termos dramáticos.
 
A direção de arte cria ambientes de aspecto orgânico e funcional 
para a "Concha", cujos corredores labirínticos, lembram 
as circunvoluções de uma concha real...
 
 
Nesta temporada temos um amadurecimento sólido de seus personagens, com destaque para Marco Alvares (Rafael Lozano de Marighella); Rafael Moreira (Rodolfo Valente de 13 Andares numa ótima performance) que cria uma boa sinergia com seu irmão caçula Artur (Léo Belmonte de Patrulha Salvadora); Glória (Cynthia Senek de Malhação) que deixa de ser a “menina meiguinha da igreja” e assume um protagonismo ainda que questionável; Xavier (o iniciante Fernando Rubro)um quase alívio cômico e, temos Joana Coelho (a excelente Vaneza Oliveira de Mãe não chora) que continua sendo a personagem forte (e uma das mais verdadeiras de toda a história), que desconfia de todo e qualquer “salvador”, incluindo Michele, mas apesar de incrédula, ela se permite conhecer a Concha e reconhece o seu potencial, ficando receosa com o rumo que as provas do “novo Processo” levará a comunidade que era para ser “uma alternativa ao estabelecido pelo Maralto”. Joana também se deixa, finalmente, levar pelos sentimentos e aceita o amor, numa mudança lenta e gradualmente construída ao longo da temporada.
 
André e Marcela instigam a rebelião na "Concha" para tomarem 
conta de tudo dentro da "legalidade"...
 
 
A fotografia impecável de Rafael Martinelli (Tempero Secreto) e Eduardo Piagge (Onisciente) com sua palheta de cores quentes que a edição de Vinicius Prado Martins (Fortunato) Olivia Brenga (Bixa Travesty) Ricardo Gonçalves (O Menino que Matou Meus Pais / A Menina que Matou os Pais) Christian Chinen (Música para Morrer de Amor) complementa num ritmo encadeando lirismo ao conhecermos os filhos de alguns personagens, percebendo o olhar infantil e o tom mais cinético quando a população se rebela contra Michelle, lembrando um mix de timbalada, culto evangélico e ato público populista, permeada pela música do estúdio Submarino Fantástico (Em Nome dos Pais) e André Mehmari (Gigantes do Brasil) que trabalha bem os momentos dramáticos e sublinha um certo lirismo e desilusão, como quando em sua seleção inclui na sequência da tomada da Concha a interpretação inspirada de Johnny Hooker para Bom Conselho de Chico Buarque, ou Mulher do Fim do Mundo interpretada por Elza Soares refletindo a reflexão de Joana sobre tudo à sua volta.
 
Leonardo (Ny Matogrosso) o pai de Marcela e o mais célebre dos 
"Alvares", a família tradicional que sempre passou no "Processo"...
 
A "Concha" abriga em seu interior um equipamento que poderá
 permitir à "Causa" dar o troco no "Maralto", que ferrou com o 
"Continente" há um século, criando a disparidade social da série...

 
A direção de arte de Fernando Zucolotto (Onisciente) e a decoração de sets de Mario Surcan (Solo) define bem o espírito da Concha, que contrasta o uso de materiais naturais em com a tecnologia sutil e avançada do Maralto, num minimalismo elegante e funcional, além de soluções criativas ao mostrar o aspecto miserável do Continente como um quebra-cabeças faltando inúmeras peças como o trecho em que Joana e Natália (Amanda Magalhães de Psi) fogem dos soldados passando de andaimes e aramados, para trechos de habitações danificadas e até seções de aviões de passageiros desativados, num grande ferro-velho, coisa que se reflete nos figurinos de Graciela Martins (Trabalhar Cansa) que flerta com o estilo “Mad Max” das roupas de guerra de Glória e de Marco quando estes vão à luta.
 
Glória (Cynthia Senek) e Marco (Rafael Lozano): O 
novo "Casal Fundador"???
 

Ao refletir temas da primeira temporada, 3% entrega em sua terceira temporada a mensagem de que a história é cíclica e, apesar das diferenças, ela está condenada à repetir-se, como demonstra a mudança rápida de opinião dos moradores da Concha mostrando o quanto a humanidade sempre está vulnerável ao discurso de “messias”e de “grandes salvadores”, mostrando com profundidade em seu texto que 3% ainda pode ser considerada uma grande produção brasileira, e não apenas a “primeira produção nacional da Netflix, tendo a crítica como elemento secundário e imaginário nesta trama que discute meritocracia e desigualdade social sem o semblante que narrativas do gênero que sempre lembram o espectador de que ele está assistindo a um projeto que quer alfinetar alguém ou alguma coisa, e assim pavimenta o seu caminho rumo àum futuro conflito que deverá encerrar as histórias de seus personagens e (se continuar com a coragem mostrada até aqui...) podemos esperar uma 4ª Temporada com tudo para terminar com uma mensagem realmente importante ao seu público.


Como diria a música: " -Vamos quebrar tudo...! Vamos, vamos..."

Quatro temporadas. Um feito e tanto apesar dos incidentes de percalço decorrentes do Brazill não conhecer e não gostar do Brasil...

O futuro, à audiência pertence...